terça-feira, 10 de setembro de 2019

Bela, recatada e do lar!? Eu!?

2016 - Contexto: Golpe em Dilma.

1- Breve autobiografia:

Aos 15 anos de idade fui convidada a me retirar da casa de minha mãe por ser subversiva, rebelde e não aceitar os mandos daquele desconhecido que acabara de ocupar o cargo de "padrasto". Eu até era boa moça, estudiosa, respeitava todo mundo e desde os doze era responsável pela organização da casa. Mas aceitar um homem que eu nunca tinha visto mandar em mim, nos meus irmãos, na casa e na minha mãe!? Sem chance. Saí. Passei uns perrengues, morei de favor em várias casas diferentes, sofri (quase) abuso sexual de um velho de 75 anos que me abrigou... (Em menos de 6 meses depois ele morreu de câncer na próstata!) Fui escrava, pois trabalhar em troca de casa e comida sem receber nem dinheiro nem respeito é o quê? Pois bem...

Muitas coisas (que não vou citar aqui) aconteceram...

Aos 16 anos estampei capa de jornal em movimento estudantil pelo passe livre. Nessa mesma época eu ía na diretoria da escola e conversava com a diretora dizendo que eu era responsável por mim, que se precisasse de qualquer assinatura me liberasse.

Assistia sem piscar as aulas de história e geografia. Eu sempre me revoltava contra os sistemas cruéis e injustos como escravidão, ditaduras, guerras e capitalismo selvagem. Nas visitas técnicas nas cidades históricas eu chorava pensando no tanto que os africanos sofreram (e morreram!) para erguer os prédios bonitos onde "todo mundo" tira foto sorrindo hoje.

Eu cresci. Passei pela adolescência e entrei na fase adulta na tora. A minha responsabilidade de me manter firme, com o corpo ileso, a mente sã e (arg!) boa reputação foi pesada. Mas eu dei conta. Sofri inúmeros preconceitos, até porque o corpo franzino não demonstrava a força e instinto de sobrevivência que eu tinha. Eu era mulher, pobre, sem endereço fixo, sem pai, sem marido, sem graduação, sem sobrenome... Ou seja: sob os olhos julgadores da sociedade, eu era uma coitadinha, sem dignidade.

Aos treze anos ouvi de um primo mais velho: "tão bonitinha! Pena que vai virar puta, como a mãe." Nem sei dizer quantos comentários como este ouvi ao longo da vida. Quando fui apresentada à mãe do meu primeiro namorado ela disse: "pela árvore se conhece os frutos. Se afaste dessa menina, ela vai te dar problema." Minha mãe não era puta nem santa. Era uma mulher a frente de seu tempo, e obviamente, mal falada. Ela sempre foi forte, corajosa e atrevida. E quando baixou a guarda para um homem, querendo ser protegida, apanhou diversas vezes até quase ser assassinada na frente dos filhos de dois e três anos de idade. Melhor se continuasse sozinha e atrevida...

Peço licença aqui para contar um episódio que me marcou muito. Aos 15 anos eu estava estudando para entrar na escola técnica federal, junto com uma "bendita cunhada". Ela tinha boas condições financeiras, estudava em escola chique, andava com roupa de marca e tudo... Eu, fudida, com calça "pegando frango", reaproveitava as páginas em branco dos cadernos do ano anterior... Ela disse: "Você não tem condição social de estudar numa escola federal. Vá dar faxina pra ajudar sua mãe." Doeu. Chorei. Engoli seco. Estudei, andei quilômetros por dia, filei merenda dos colegas e... passei! Com 17 anos eu concluí os ensinos médio e técnico na escola federal. Nunca disse nada para ela. A realidade lhe bastou: largou a escola no início do terceiro ano e não concluiu o médio até hoje. Fala se não foi um tapa de luva (de boxe!)?

Enfim, convivi com esses preconceitos estampados e muitos outros disfarçados, como as perguntas que eu tinha que responder em entrevistas de emprego, ou para locadores de imóveis. Doía perder vagas só por causa das características citadas acima. Não importava minha competência, meu estudo, minha seriedade como pessoa. Nada.

Como eu amargava as perdas sucessivas, eu resolvi burlar o sistema: nem entrei na trágica estatística do meu primo e fui estudar. Optei por encarar o sistema de frente, de cabeça erguida e raspada. Trabalhei como doméstica, feirante, secretária, babá, jornaleira, etc. Recebi apoio de amigos que sempre acreditaram no meu potencial e assim nunca dormi na rua. Nunca passei mais de 24 horas sem comer. Comia tudo o que podia nas cantinas da escola. Fazia estágios, ganhava bolsas, pegava livros emprestados, andava muitos quilômetros a pé (para lanchar com o dinheiro da passagem) e assim ía me virando. Minhas notas sempre foram excelentes para quem tinha uma vida tão dura. E presença quase 100%. Podem ver meus históricos ou conversar com qualquer professor que tive.

Vivi uma relação amorosa de muitos anos com um rapaz de uma "tradicional família mineira" e comia o pão que as cunhadas amassaram (mas eu cuspia cacos de vidro!). Ali tive que lidar com machismo, preconceito de classe, de gênero, de "mãe", de tudo... Hoje eu penso que fui de ferro. Afinal, "eu não era boa companhia para o bom moço"...

Assim segui minha trajetória: pressionada por todos os lados, mas sem desistir. Às vezes fraquejava numa depressão, mas sobrevivia. Os anos foram se passando e eu acompanhando a peleja do Lula para chegar na presidência. Ele pelejava de lá e eu de cá. Até que um dia ele conseguiu, por mais que as forças do mal tentassem impedir. Assim também ocorreu comigo. Para desgosto dos primos, cunhadas, locadores, patrões e todo o pesado sistema em cima da minha cabeça eu entrei na UFMG.

2- O estudo trouxe dignidade.

A "coitadinha" aqui passou em primeiro lugar numa época antes dessa mamata de Enem. Era um vestibular pesado e concorrido. Ah, foi meu júbilo! Coincidentemente foi na mesma época em que casei e passei a ter um endereço. Aí a sociedade passou a me respeitar. Tive plano de saúde, conta no banco e outras coisas que me faziam pensar que fiquei rica da noite para o dia. (Nada de dinheiro, só status mesmo, neste mundo de aparências.)

Tá bom, no primeiro ano me esbaldei, alimentei meu ego e sapateei na cara daqueles que me esnobaram. Depois, naturalmente desci do salto e voltei para a realidade de mulher pobre e batalhadora que luta todos os dias para conquistar respeito. Quem abriu essa porta pra mim foi ele, meu companheiro (e amigo platônico) Lula. Várias conquistas vieram. Sobretudo na autoestima e na forma de ver e relacionar com o mundo...

Na universidade convivi com refugiados da África e do Haiti (pós terremoto), com índios, com centenas de negros e mulheres. Eu gostava de almoçar cedo no bandejão para ouvir as conversas dos inúmeros operários que trabalhavam nas obras de ampliação da universidade e do estádio. Eu amava aquele ambiente rico de culturas, de vidas, de cabeças pensantes e de gente simples e guerreira. Batia altos papos com porteiros, faxineiras, jardineiros, motoristas e outros trabalhadores que fazem aquela gigantesca máquina girar. Vi de tudo, inclusive professor doutor corrupto usando a estrutura da universidade, incluindo mão de obra barata de aluno, para ganhar dinheiro e prestígio social.

Vivi intensamente alguns anos dentro deste universo. E dei graças a Deus por Lula (e depois Dilma) estar no comando do Brasil. Vários colegas meus, tão pobres quanto eu, negros e mulheres indo fazer intercâmbio no exterior, às custas do governo federal. E eu e muitos outros fizemos intercâmbio em outras regiões do país.

Isso tudo ao mesmo tempo em que eu ía a campo no curso de turismo, conhecendo as distintas realidades Brasil adentro... E sempre com o fantasma do machismo na minha cola... Meu pai (sim, para encher o saco tenho um - para ajudar não desde meus 12 anos) disse: "essa menina, em vez de cuidar do marido fica só viajando!" Imagine a minha vontade de mandar para aquele lugar!? Se não fosse meu pai eu mandava!

À medida em que eu ía estudando, viajando e aprendendo ficava cada vez mais difícil tolerar preconceitos e mediocridades em cima de mim. Chegou uma hora que rompi com todos: marido, família do marido e a minha. Alguns amigos machistas foram embora no pacote. Simplesmente não deu pra aguentar. Mandei todo mundo se lascar e pus o pé na estrada. Eu disse para a psicóloga que ía embora e ela perguntou: "Vai largar tudo?" Eu respondi: "Tudo o que tenho é meu corpo e minha mente. Isso vai comigo pra onde eu for."

Fui! Me arrisquei, tive meus momentos de dúvidas, mas fui amparada pelos bons e velhos amigos (vivos e espirituais). Me joguei de braços abertos ao novo, não olhei para trás e deu tudo certo! Com as ferramentas que angariei ao longo da jornada fui fazendo meu próprio caminho sem âncoras para me puxar para baixo. Eis que o destino me presenteou com uma surpresinha: um novo amor, que logo se multiplicou... Um homem que me trata com o carinho e respeito que toda mulher merece. Aí eu até senti vontade de dedicar todo o amor guardado que eu até então não tinha a quem oferecer. Passei a viver uma relação tão saudável que a vontade de viver só aumentava, e num momento de profunda conexão com a natureza, com o Divino, com o amor puro eu servi de conexão entre a espiritualidade e a humanidade encarnada. Sim, o Universo achou que eu estava preparada e me enviou a missão de gerar, parir, amar e cuidar de um ser humano.

Até aí Dilma me ajudou: durante a gestação e no parto fui totalmente amparada pelo SUS, em nível de primeiro mundo, sem gastar nada. Um parto humanizado de dar inveja a qualquer mãe com plano de saúde. Depois eu e meu filho fomos amplamente assistidos pelo posto de saúde de onde morávamos, incluindo na dificuldade de amamentação, que foi resolvida com toda a doçura e respeito da equipe do posto. Meu filho está com 1 ano e 4 meses e cresce totalmente saudável, amamentando, é claro. Lembro de Dilma fazendo campanha pelo aleitamento materno... E mais uma vez uma pessoa ignorante (acho que uma "médica") postou um texto na Internet falando que amamentar é coisa de pobre e outras bobagens... Enfim, minha história prossegue como a história dos meus companheiros de luta que são brasileiros e não desistem nunca.

3- Meu corpo, minhas regras.

Falei sobre a cabeça raspada porque este é um tema que me instiga. É impressionante como a sociedade julga as pessoas por aparência ainda nos dias atuais! Pois eu experimentei o desgosto do meu pai (de novo, perdendo a oportunidade de ficar calado) quando raspei a cabeça em comemoração à aprovação no vestibular. Para homem não é normal e até tradição!?. E achei engraçado quando perto do fim da graduação uma amiga me disse que achava que eu tinha câncer no início do curso! Já ouvi cada uma...

E quando me casei com um homem que usava dreads!? Que "naturalmente" (!?) passou a ser respeitado quando cortou o cabelo... Ah... Será que realmente importa a aparência? Se em momentos diferentes da minha vida eu usei visual careta (formal), sensual, "ripongo", largado, "barango", ou qualquer outro... Isso por acaso muda a minha essência, meu valores e minhas atitudes?

Nunca fui elegante, discreta e com cara de "normal". Sempre preferi ter cara de doida para que não mexessem comigo. Autodefesa carregada de: "Estou pouco me lixando para seu julgamento e sua forma estreita de ver o mundo. Vá se lascar! Meu corpo, minhas regras!

4- Bela, recatada e do lar? Eu? NUNCA!

Escrevi este texto para reafirmar e que não reconheço este governo golpista. Graças a Deus nunca fiz parte da burguesia fedida, ou (para ser um pouco polida) como disse a filósofa Marilena Chauí: "A classe média é fascista, ignorante e violenta." Estou ao lado dos meus semelhantes (minhas origens!): maconheiros (legalize já!), gays, vadias (merecem respeito e bora pra marcha!), trabalhadores, pobres, estudantes, professores e oprimidos em geral! (Somados somos maioria!)

Que fique bem claro: BELA, RECATADA E DO LAR É A PUTA QUE PARIU!

Quando penso em mulheres que se encaixam nesses adjetivos imagino mulheres que costumam apanhar dos maridos, que assistem o Willian Bonner sem pensar, pois acreditam nele. E torcem para Aécio Never ser presidente porque ele é bonito e fala bem. E depois assistem sua principal fonte de cultura: novela. Aquele programa cheio de mensagens sobliminares para doutrinar suas mentes. Deus me livre! Nem tenho tv em casa.

Esta é parte da minha história. Escrevi este texto-desabafo para desintalar várias coisas incômodas. Não sinto vergonha nem me vanglorio. Sou apenas mais uma brasileira na luta pela sobrevivência. Se me exponho é porque não vivo de aparências, fingindo ser feliz e acomodada o tempo todo.

Nunca vou me calar diante de uma injustiça. O que estão fazendo com Dilma e Lula é uma injustiça, feita somente para eles salvarem suas próprias peles.

Ao Lula, Dilma e sua equipe, minha gratidão, meu respeito e admiração. Espero que essa insanidade de golpe acabe logo.

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...