terça-feira, 12 de maio de 2020

2019-05 Depressão


(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.)

Olá, amigas queridas.

Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de enviar um "relatório" com notícias minhas e de minha família. É muito bom dizer o quanto as crianças estão se desenvolvendo bem, descrever um pouco do lugar onde vivemos e da nossa rotina. Gosto de escrever, de contar com emoção, com detalhes e uma pitada de gracinhas pra ficar gostoso de ler. Adoro as reações das amigas, que se aproximam e dão retorno se abrindo também. Assim a gente vai se mantendo próximas apesar da distância física. 

Desde que engravidei de Marcelo "optei" por uma vida simples no Capão junto ao Víni. E sou muito grata por tantas coisas boas que vivemos, a nossa relação de casal, a vida com com filhos, nosso humilde e aconchegante lar, o trabalho dele que nos dá o sustento e nos privilegia com a presença dele em casa (muito mais que num emprego formal). Sou grata pelas pessoas especiais em nossas vidas, os que moram próximos e os distantes. Sou grata por nossa saúde, pela nossa qualidade de vida  (apesar dos recursos modestos) e pela nossa paz. Sou grata por tantas experiências que vivemos que formaram nosso caráter, nossos valores, nosso conhecimento e nosso posicionamento perante a vida e seus desafios. Sou grata. Maaaassss...

A vida não é um mar de rosas. Temos problemas, contas pra pagar, rotina, cansaço,  dores, frustrações, medos, ansiedades e vários pequenos probleminhas. Some-se a isso um enorme desânimo com a política no país (a dor diária de pensar que vivemos um pesadelo: aquele demônio no poder e tudo de ruim que isso representa e implica).

Mas além disso tem outras cositas que quem é próximo a mim sabe: eu tive três filhos, um atrás do outro. Imagine o que são quatro anos e cinco meses amamentando sem parar, com um peito grande e outro pequeno (com várias complicações). Imagine o que são quatro anos sentindo as dores físicas e emocionais de três puerpérios. Imagine o sentimento de culpa por ter engravidado assim, na sequência, três vezes!?

Mas não posso me cobrar pelas três gravidezes. Todas foram em momentos especiais, de formas especiais, com muito amor. Todas as três vezes foram com o pensamento: “No próximo mês vou ao posto de saúde providenciar um método contraceptivo.” Mas no segundo mês já estava grávida. A primeira vez foi quando vim morar no Capão com Víni, em plena lua de mel, há exatos 5 anos.  Enfim sós... O Vale em flor de quaresmeiras, o romance no ar... Músicas, comidinhas, declarações de amor sob cachoeiras, céus lindos de outono... Não deu outra. (Só essa gravidez e toda a transformação que ela trouxe pra minha vida já é tema pra um livro. Mas deixemos pra outra ocasião). Quando Marcelo completou um ano eu coloquei o DIU. Não me adaptei. Usei por 6 meses. Não aguentei e tirei. Iria tentar algo menos agressivo. A segunda foi após ter ficado longe de Víni por 3 meses (tinha ido pra BH terminar a graduação). Voltei pra casa cheia de amor pra dar. Foi bem quando Marcelo passou a dormir fora de nossa cama, bem quando Víni comprou um colchão novo maravilhoso. Pagou uma entrada e mais nove prestações. Na última Hugo nasceu. (Rsrsrs) A última concepção  foi há um ano, logo após voltarmos ao Capão depois de dois anos fora, na aridez do cerrado desmatado no interior de Goiás. Nós não nos adaptamos à cultura e à secura de lá. Voltamos pro Capão cheios de alegria. A mudança foi uma saga (tema pra um texto longo em outra ocasião). Assim que estava tudo em ordem, na páscoa, meu amor pra cá e pra lá e pimba! Olha a semente Catarina plantada. No início foi difícil aceitar a gravidez, pois eu sabia o quanto estaria ferrada pra cuidar de três pequenos. Mas aos 4 meses, quando vimos que era a sonhada menina, nos derretemos e abraçamos a ideia...

Mas o desespero de ter três filhos só não é maior que o medo de ter quatro. Como já tive três provas da potência da nossa fertilidade, não posso arriscar mais. Antes eu achava que precisava estar menstruando (consequentemente ovulando) para engravidar. Como depois que temos filho levamos mais ou menos um ano pra menstruar de novo, eu achava que poderia ficar tranquila. Doce ilusão. Não sabia de nada a inocente. Pra evitar qualquer risco estamos usando preservativo e anticoncepcional, até daqui a um mês quando ele vai fazer vasectomia. Aí é que a porca torce o rabo! Anticoncepcional me mata! Eu vivo numa constante TPM, sofrendo com fortes dores físicas e emocionais. Já ouviram falar TDPM? Pesquisem aí. É uma super TPM. Daquelas que se a mulher matar alguém no período pode ter pena reduzida. Tenho vontade de pôr fogo no anticoncepcional. 

Mudando de assunto, voltando para o assunto inicial: 

Imagine o quanto eu gostava do meu curso na UFMG e o quanto significava formar lá e ter uma vida profissional na área que escolhi. Eu dediquei com muito amor, mas nadei nadei e morri na praia. Claro que todo o conhecimento é válido, eu tenho o maior carinho e respeito por tudo o que aprendi. Mas até hoje não consegui usar nada pra ganhar dinheiro. Isso me dói. Tenho um puta potencial, capacidade mental, de projetar e também de agir. Mas... Atualmente é tudo dedicado somente à maternidade e gestão do lar. 

Eu sempre fui muito ativa, sempre dei meus corres e desenrolava mil coisas. Agora vivo presa pelo peito, cansada, com sono, lenta como um zumbi. Como eu gostaria de trabalhar todo dia! De me envolver em projetos,  em dedicar meu tempo, inteligência e experiência numa atividade e uma vez por mês  receber dinheiro por isso. Tem a ver com dignidade, autonomia, independência, possibilidade de escolha e mobilidade. Tudo o que não tenho mais desde que nasceu o primeiro filho. 

Eu sou aquariana. Prezo a liberdade e tenho a mente à frente. Piro se ficar presa a um lugar, ou situação ou mesmo a uma pessoa. Amo mudanças de todos os tipos. Quando penso em morar (ou trabalhar) no mesmo lugar pra sempre eu choro e desespero. Eu gosto de movimento, de coisas acontecendo. Adivinhem como me sinto no Capão? Sufocada pelas montanhas inertes! Eu quero, por opção, morar numa cidade pequena. Mas que tenha calçamento e calçadas, casa lotérica, banco, praças, ônibus e outros recursos que compõem a vida em sociedade, com um mínimo de urbanidade. O último dia em que andei de ônibus foi em 2016 em BH! Não posso jogar na Mega sena porque aqui não tem nem casa lotérica! Não tem banco pra eu entrar e curtir o frescor de um ar condicionado num dia quente, ou mesmo fazer amizade na fila. Pra vocês que moram em cidades, imaginem o quanto essas bobagens fazem falta. 

Eu já sei o estado e a região em que quero morar. Espero que possamos mudar pra lá antes de os meninos entrarem na adolescência. Enquanto não chega o momento olho pras montanhas e fico suspirando.

 É dureza morar num lugar onde a gente se sente limitado. Ainda tem a questão social: o enturmar. Aqui no Capão existem mil "panelinhas": os veganos, os artistas, os do circo, as mães, os malucos de BR, os nativos, os empreendedores, os ateus, os crentes, os católicos, os espíritas, os atletas, os das terapias alternativas, os chiques, os que andam descalços com cachorros em volta, as femininas, os pingurços, etc, etc... E adivinhem de qual grupo faço parte? Dos excluídos. Exatamente. Nenhum. Com três crianças não consigo administrar tempo e toda a logística pra participar de algo com regularidade. Resultado: me contento com umas voltinhas na Vila ou em cachoeiras nos dias de folga. Mas eu queria mais! Gosto de gente, de convívio, de profundidade. 

Por falar em não regularidade: não estou conseguindo praticar atividade física. Nem caminhar. Até tomar um pouco de sol é difícil. Fico envolvida na rotina da casa e dos meninos que acabo deixando em segundo plano. Racionalmente sei de tudo, mas na prática... Todo e qualquer tempinho de boa só quero descansar. A preguiça de andar na lama ou na poeira, sob sol ou sob vento/garoa/chuva impera. Assim vão passando os dias e me torno uma planta murcha no canto da casa. Resultado: corpo parado, zero hormônios de prazer e bem estar e muito hormônio de estresse. 

Outras coisas simples que eu sempre gostei e me faziam bem já não consigo fazer, tipo ouvir música, dançar, costurar, cuidar das plantas ou preparar uma comida gostosa. Os meninos não deixam. Tudo o que vou fazer é com eles ao redor futricando, se colocando em perigo, brigando, chorando ou atrapalhando. Aí se não estiver nas demandas normais (banhos, fraldas, cozinha, conflitos, etc) fico como uma estátua no sofá, amamentando. No máximo assistindo algo ou fuçando no celular. 

Estou me sentindo uma velha rabugenta. E feia. Da última gestação fiquei com a barriga aberta. Trem estranho. Uma barriga que nunca me pertenceu. Estrias, celulites e pele mole pra todo lado. Cabelos brancos caindo horrores. Sinto que sou uma gelatina derretendo. Rugas, olheiras e manchas no rosto. Credo. Parece que estou mais morta que viva.

Sinto tanta falta de viajar... Nossa... A última vez que vi o mar foi em João Pessoa antes de mudar de lá pra cá em abril de 2014. 5 anos sem mar. Pronto: morri. Mesmo que a gente possa vir a viajar com frequência um dia, não será a mesma coisa. Eu tinha um mapa do Brasil que eu abria e com a mochila nas costas decidia a rota. E caso aparecesse algo legal que desviasse a rota, tudo bem. Agora? Não vou nem na cidade vizinha a 20km de casa. Aí entra um dos maiores sonhos que tenho: aprender a dirigir. Isso depende de três coisas: 1- alguém pra cuidar dos meninos 2- boa vontade/tempo do Víni me ensinar 3- dinheiro pra tirar carteira. Ou seja, vai demorar. Não sei como fui capaz de passar 5 anos dentro de uma faculdade, em vez de tirar CNH!

Como último tópico pra chorar as pitangas quero mencionar o tanto que sinto falta de escrever. Tenho várias ideias para blogs e até livros. Mas é impossível eu ficar na frente do computador por mais de cinco minutos sem ninguém pular em cima, chorar, puxar meus peitos e pedir "Peppa". Minha maior frustração. Escrevo uns três textos mentalmente por dia. Tenho certeza que quero ser escritora. 

Bem, até aqui deu pra ter uma noção dos motivos pelos quais me sinto cansada e triste. Tem outros, mas nem quero mencionar.

Desculpe tomar o precioso tempo de vocês com este textão, reclamando da vida. Mas eu precisava desabafar senão eu ía explodir. (Mais um tópico: ausência de amig@s próxim@s para conversar ao vivo. Todo mundo nos seus próprios "corres", até as fiéis amigas distantes.)

Não se enganem com fotos minhas sorrindo com a família em lugares bonitos como num comercial de margarina. Consigo ser falsamente bela, mesmo triste. A gente perde o tarja preta, mas não perde a pose! Rsrsrs Claro que não vou escancarar a depressão no Facebook. Também peço a discrição de vocês.  Mas por aqui me senti à vontade para lhes dar a real. Peço carinho, respeito e compreensão. Dispenso julgamentos, sentimentos de pena e cobranças. Não precisa dizer "Você tem que fazer isso e aquilo." Eu sei o que preciso fazer. Só preciso conseguir. Só emanem para mim boas vibrações e orações. Também aceito ajudas reais, tipo ficar com os meninos pra eu conseguir fazer algo. Também aceito links para bons textos, filmes, palestras ou qualquer coisa útil. Na atual conjuntura até piada é útil! Rsrsrs Também aceito doação de livros espíritas, ou livros virtuais. Também aceito presentes como flores, mudas, frutas ou chocolate. Rsrsrs Qualquer coisa que possa levantar o astral de quem está derrubada. (Com certeza as orações são as mais eficazes.)

Peço desculpas às amigas queridas a quem não estou conseguindo "cuidar", dar a atenção que acho que merecem. Depois que eu me recuperar voltarei a pentelhar vocês (e suas crias). 

Amo vocês. Obrigada por serem meus "orelhões".
Sigo no mantra: "Vai passar." 
Júnia Patrícia.
Maio de 2019.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

2020-04 Notícias da Família Rosa


Estamos bem, graças a Deus. Eu e Víni num clima romântico, pois estamos completando 7 anos juntos. Muitas lembranças boas, clima de lua de mel… O convívio de casal está muito bom, pois somos parceiros, amigos, dividimos bem e naturalmente as tarefas, rimos muito juntos, filosofamos, abrimos o coração e nunca brigamos. (Sem falar que na intimidade há uma harmonia incrível entre nós…)

Nossas três bencinhas estão de boa, levando a vida com saúde e alegria. Marcelo é um capricorniano centrado, maduro e discreto. Hugo é um canceriano amoroso e dramático. Está sempre envolvido numa traquinagem com sua cúmplice Catarina. Ela é sagitariana aventureira, sem limite, carismática, brava e com a personalidade mais forte da casa.   Todos três amam nossa vida, nossa família, o Capão, a natureza e os pequenos confortos a que temos acesso. Eu e Víni ficamos bem cansados de administrar as necessidades deles diariamente, mas vale a pena. São seres de alma linda, que enchem nossas vidas de sentido e alegria.

Eu particularmente estou vivendo um bom momento, pois estou trabalhando fora enquanto Víni fica de dono de casa de 8 às 14h. É o meu momento de descanso! E ainda recebo pra isso! É mesmo incrível. Estou adorando ser a mantenedora financeira da casa. Situação inédita para mim. Só isso já é assunto pra um livro… Claro que tivemos que adaptar a um rendimento mínimo, básico para a sobrevivência, mas até isso é positivo. Aprender a viver na escassez é importante para crescimento pessoal, humano e espiritual. Tudo bem que tenho jornada dupla, pois chego do trabalho e não paro até a hora de ir pra cama à noite, mas tudo bem. Eu dou conta. Já estive muito mais esgotada. Depois de tudo o que já passei, isso é fichinha.

Sobre a quarentena mundial só vejo dois pontos negativos: o baixo astral (medo e tensão geral) e o colapso econômico. Fora isso, são muitos pontos positivos para o planeta e para a humanidade. Confesso que estou adorando o silêncio, o espaço, o ar limpo, as ruas mais limpas, a paz e tantas subjetividades que só podem ser percebidas ao se baixar as vibrações e movimentações em geral. Sem falar que enfim estou tendo tempo e sossego para colocar meu trabalho em dia.

Sinto um pouco de pena de quem vive em lugares e em situações muito mais desfavoráveis que eu, principalmente as pessoas que amo. Mas infelizmente não posso fazer nada por elas além de rezar.

Por outro lado, confesso que estou gostando de ver todo mundo tendo que desacelerar e se voltar mais pra dentro. Eu vivo o isolamento desde que engravidei de Marcelo. Eu me afastei dos meus sonhos, dos meus prazeres, das cidades, da universidade, dos amigos, de tudo o que eu estava construindo como "a minha vida". Fiquei sozinha, apartada, triste, sem poder dedicar a nada do que eu queria. O foco foi apenas cuidar do filho, do companheiro e do lar. Depois vieram mais filhos. Mais foco pra dentro e mais distanciamento "do mundo lá fora". Enfrentei meus fantasmas, meus traumas, meus segredos sórdidos, minhas contradições, minhas frustrações, meus tocs, minhas saudades, meus pensamentos obsessivos no que poderia ter sido, minhas ansiedades quanto a um futuro totalmente incerto, enfim, estive de frente comigo durante 5 anos. Ao mesmo tempo que sentia dor, sono, medo, solidão e uma tristeza profunda. Comi o pão que o diabo amassou. Graças a Deus passou, desde a virada do ano, quando a caçula completou um ano e eu comecei a trabalhar. Essa quarentena agora é moleza pra mim. Confesso que estou é gostando de ver todo mundo passando um pouquinho do que eu passei. Estou observando o comportamento de cada um… Aprendendo e curiosa para ver como vamos todos estar daqui a um ano ou dois. Mas sem pressa. Vamos deixando rolar...

2019-05 Minha história com a escrita (Texto em construção)

Acredito que minha primeira experiência com a leitura e a escrita foi quando eu nem sabia ler e escrever. Dos 7 aos 10 anos, da primeira à quarta série, eu convivi diariamente com a Tati, que se tornou minha melhor amiga da vida toda. Nós duas trocávamos cartas todos os dias, um dia ela um dia eu. No início eram desenhos e à medida em que éramos alfabetizadas passamos a escrever. Era um lindo elo de amizade entre nós. Depois disso colecionamos papéis de carta, mas não escrevíamos! Eram intocáveis! (risos) Vou perguntar o que ela fez com aquelas pastas. Depois passamos a morar em cidades vizinhas e de vez em quando trocávamos cartas pelo correio. Escrevíamos em códigos sobre os primeiros suspiros de amor, sobre a vida em família, sobre os desafios da adolescência. Foi tão bom... Mas agora com as tecnologias e a falta de tempo - ambas somos mães - escrevemos pouco. Mas tudo bem. A experiência pretérita vale mais, pois ajudou na minha formação pessoal.

Quando eu tinha 9 anos eu escrevi um texto entitulado "O balãozinho azul". Infelizmente não me lembro do conteúdo nem tenho uma cópia, mas foi meu primeiro texto admirado, copiado e compartilhado. A professora gostou tanto que copiou no mimiógrafo e entregou cópias para as outras professoras distribuírem com as outras turmas. Já fiquei com o ego de escritora mirim inflado.

Na quarta série tive uma professora muito exigente que cobrava postura, posição certa de apoiar o caderno, de segurar o lápis, de posicionar todos os objetos, etc, etc... Ela cobrava que escrevêssemos com a mão firme a fim de o lápis ficar bem visível no papel branco. Eu fazia tanta força que todas as páginas ficavam marcadas atrás. Até hoje escrevo assim! - Obrigada, Dona Mariangêla!

Na 5ª série escrevi um texto sobre a independência do Brasil. Também não guardei cópia. Mas ficou tão legal que o professor duvidou que eu que tinha redigido. Ele até queria me dar nota menor. Se existisse Google ele teria vasculhado para tentar provar que era plágio. Mas não era. Ele reclamou que não havia nem erros ortográficos. Escrevi um diálogo entre mãe e filha, onde a filha perguntava sobre o que era independência para a mãe. Narrativa leve e agradável, madura e ao mesmo tempo de entendimento fácil. Nunca esqueci a cara do professor insistindo pra eu confessar de onde copiei.

Se você que está lendo era daquela turma do professor Elson, vai lembrar da confusão.

Patrícia Fonseca, lembro do seu pseudônimo de Onça Pintada, que o professor pensou que era eu! (Risos)

Na 7ª série participei do debate literário na escola, era tipo uma gincana. A cada bimestre havia uma competição dentro de cada sala que tinha prova escrita e um debate, meio que um jogo de perguntas e respostas de cada livro. Era um livro por mês, proposto pela professora. Eram livros iguais para todas as turmas, que a cada bimestre trocavam entre si. O grande debate ocorria ao final do ano, com uma dupla representando cada turma. Era muito legal, todo mundo se envolvia, dava seu melhor. A gincana acontecia na quadra, que ficava cheia e tinha até torcidas organizadas. Eu e meu par arrasamos, fizemos até cenas teatrais fortes, como a cena de um sequestro e tentativa de estupro. Lembro que voou botão pra todo lado. Foi emocionante. Participei também na 8ª, com o mesmo par. Na época os prêmios eram fuleiros, como caixas de bombons, um dicionário e uma medalha. Depois eu mudei de escola, aí nos anos seguintes o prêmio foi um computador, rádio microssystem e outros eletrônicos chiques na época. Mas valeu. Ter vencido naqueles dois anos não tem preço. Lembro que alguns amigos que foram "massacrados" por nós nos odiaram por anos! (risos)

Em toda a minha vida estudantil eu gostei das aulas de português e redação. Literatura nem tanto, estudar os estilos de época e ler aqueles clássicos era bem chato. Mas eu adorava escrever. Sempre fui bem nas redações e dissertações, exploradas massivamente pelos professores de ensino médio, nos preparando para o temido vestibular. Professor de cursinho então... Mas eu amava ler os livros que cairiam no vestibular e esmiuçá-los, e fazer mil questões sobre eles, seus autores, no contexto histórico de cada um e relacionando um livro com o outro. Eu até me apaixonava pelos professores de literatura (que quando eu investigava quase desmaiava ao ouvir que eram gays! Um até se tornou trans pouco tempo depois! - Risos!). Foi assim que aprendi a amar dois livros que transformaram minha vida: Grande Sertão Veredas, do Rosa e Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Que saudade daquelas aulas intensas mergulhando nos personagens...

Eu sempre dei meu melhor. Nem sempre era um texto exemplar, mas sempre acima de 70% da nota. Eu usava o que aprendia nas aulas de português nas provas das outras disciplinas. Tanto que sempre gostei de prova aberta, o terror dos colegas. Eu adorava um "

" floreado que muitas vezes disfarçava que eu não dominava o assunto, só tinha uma noção.

O auge da minha escrita foi no vestibular da UFMG em 2010. Eu concorri com 200 pessoas e passei em 1º lugar. Sabe o que significa isso!? Eram duas etapas: a primeira com provas fechadas (de marcar X) de todas as disciplinas. A segunda só de questões abertas das disciplinas específicas da área. As minhas eram História, Geografia, Português e Redação. Eu praticamente tirei total na redação. Nunca vou esquecer a questão e a linha de raciocínio. Também me lembro de algumas questões de Geografia e História. Caprichei até na caligrafia. Sou uma pessoa muito antiga! Tive cadernos de caligrafia e os usava com afinco e dedicação. O resultado foi bom. Naquela prova, que era aberta de geografia, história, literatura e a redação, até os finais das respostas eram perto do final da última linha de espaço disponível. Tive o maior cuidado. Tenho certeza de que aquele capricho me deu pontos a favor. Usei tudo o que aprendi naquela ocasião e super valeu a pena. (Eu deveria ter corrido atrás da cópia da minha prova para guardar. Penso até em refazer a prova, pois adorei as questões e lembro da linha de raciocínio.)

Depois ao longo da vida acadêmica saber escrever bem sempre foi útil. (Continua...)

2019-05 Depressão

Olá, amigas queridas.

Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de enviar um "relatório" com notícias minhas e de minha família. É muito bom dizer o quanto as crianças estão se desenvolvendo bem, descrever um pouco do lugar onde vivemos e da nossa rotina. Gosto de escrever, de contar com emoção, com detalhes e uma pitada de gracinhas pra ficar gostoso de ler. Adoro as reações das amigas, que se aproximam e dão retorno se abrindo também. Assim a gente vai se mantendo próximas apesar da distância física.

Desde que engravidei de Marcelo "optei" por uma vida simples no Capão junto ao Víni. E sou muito grata por tantas coisas boas que vivemos, a nossa relação de casal, a vida com com filhos, nosso humilde e aconchegante lar, o trabalho dele que nos dá o sustento e nos privilegia com a presença dele em casa (muito mais que num emprego formal). Sou grata pelas pessoas especiais em nossas vidas, os que moram próximos e os distantes. Sou grata por nossa saúde, pela nossa qualidade de vida (apesar dos recursos modestos) e pela nossa paz. Sou grata por tantas experiências que vivemos que formaram nosso caráter, nossos valores, nosso conhecimento e nosso posicionamento perante a vida e seus desafios. Sou grata. Maaaassss...

A vida não é um mar de rosas. Temos problemas, contas pra pagar, rotina, cansaço, dores, frustrações, medos, ansiedades e vários pequenos probleminhas. Some-se a isso um enorme desânimo com a política no país (a dor diária de pensar que vivemos um pesadelo: aquele demônio no poder e tudo de ruim que isso representa e implica).

Mas além disso tem outras cositas que quem é próximo a mim sabe: eu tive três filhos, um atrás do outro. Imagine o que são quatro anos e cinco meses amamentando sem parar, com um peito grande e outro pequeno (com várias complicações). Imagine o que são quatro anos sentindo as dores físicas e emocionais de três puerpérios. Imagine o sentimento de culpa por ter engravidado assim, na sequência, três vezes!?

Mas não posso me cobrar pelas três gravidezes. Todas foram em momentos especiais, de formas especiais, com muito amor. Todas as três vezes foram com o pensamento: “No próximo mês vou ao posto de saúde providenciar um método contraceptivo.” Mas no segundo mês já estava grávida. A primeira vez foi quando vim morar no Capão com Víni, em plena lua de mel, há exatos 5 anos. Enfim sós... O Vale em flor de quaresmeiras, o romance no ar... Músicas, comidinhas, declarações de amor sob cachoeiras, céus lindos de outono... Não deu outra. (Só essa gravidez e toda a transformação que ela trouxe pra minha vida já é tema pra um livro. Mas deixemos pra outra ocasião). Quando Marcelo completou um ano eu coloquei o DIU. Não me adaptei. Usei por 6 meses. Não aguentei e tirei. Iria tentar algo menos agressivo. A segunda foi após ter ficado longe de Víni por 3 meses (tinha ido pra BH terminar a graduação). Voltei pra casa cheia de amor pra dar. Foi bem quando Marcelo passou a dormir fora de nossa cama, bem quando Víni comprou um colchão novo maravilhoso. Pagou uma entrada e mais nove prestações. Na última Hugo nasceu. (Rsrsrs) A última concepção foi há um ano, logo após voltarmos ao Capão depois de dois anos fora, na aridez do cerrado desmatado no interior de Goiás. Nós não nos adaptamos à cultura e à secura de lá. Voltamos pro Capão cheios de alegria. A mudança foi uma saga (tema pra um texto longo em outra ocasião). Assim que estava tudo em ordem, na páscoa, meu amor pra cá e pra lá e pimba! Olha a semente Catarina plantada. No início foi difícil aceitar a gravidez, pois eu sabia o quanto estaria ferrada pra cuidar de três pequenos. Mas aos 4 meses, quando vimos que era a sonhada princesa Rosa, nos derretemos e abraçamos a ideia...

Mas o desespero de ter três filhos só não é maior que o medo de ter quatro. Como já tive três provas da potência da nossa fertilidade, não posso arriscar mais. Antes eu achava que precisava estar menstruando (consequentemente ovulando) para engravidar. Como depois que temos filho levamos mais ou menos um ano pra menstruar de novo, eu achava que poderia ficar tranquila. Doce ilusão. Não sabia de nada a inocente. Pra evitar qualquer risco estamos usando preservativo e anticoncepcional, até daqui a um mês quando ele vai fazer vasectomia. Aí é que a porca torce o rabo! Anticoncepcional me mata! Eu vivo numa constante TPM, sofrendo com fortes dores físicas e emocionais. Já ouviram falar TDPM? Pesquisem aí. É uma super TPM. Daquelas que se a mulher matar alguém no período pode ter pena reduzida. (Rsrsrs) Tenho vontade de pôr fogo na cartela de anticoncepcional.

Mudando de assunto, voltando para o assunto inicial:

Imagine o quanto eu gostava do meu curso na UFMG e o quanto significava formar lá e ter uma vida profissional na área que escolhi. Eu dediquei com muito amor, mas nadei nadei e morri na praia. Claro que todo o conhecimento é válido, eu tenho o maior carinho e respeito por tudo o que aprendi. Mas até hoje não consegui usar nada pra ganhar dinheiro. Isso me dói. Tenho um puta potencial, capacidade mental, de projetar e também de agir. Mas... Atualmente é tudo dedicado somente à maternidade e gestão do lar.

Eu sempre fui muito ativa, sempre dei meus corres e desenrolava mil coisas. Agora vivo presa pelo peito, cansada, com sono, lenta como um zumbi. Como eu gostaria de trabalhar todo dia! De me envolver em projetos, em dedicar meu tempo, minha inteligência e experiência numa atividade e uma vez por mês receber dinheiro por isso. Tem a ver com dignidade, com autonomia, com independência, possibilidade de escolha e mobilidade. Tudo o que não tenho mais desde que nasceu meu primeiro filho.

Eu sou aquariana. Prezo a liberdade e tenho a mente à frente. Piro se ficar presa a um lugar, ou situação ou mesmo a uma pessoa. Amo mudanças de todos os tipos. Quando penso em morar (ou trabalhar) no mesmo lugar pra sempre eu choro e desespero. Eu gosto de movimento, de coisas acontecendo. Adivinhem como me sinto no Capão? Sufocada pelas montanhas inertes! Eu quero, por opção, morar numa cidade pequena. Mas que tenha calçamento e calçadas, casa lotérica, banco, praças, ônibus e outros recursos que compõem a vida em sociedade, com um mínimo de urbanidade. O último dia em que andei de ônibus foi em 2016 em BH! Não posso jogar na Mega sena porque aqui não tem nem casa lotérica! Não tem banco pra eu entrar e curtir o frescor de um ar condicionado num dia quente, ou mesmo fazer amizade na fila. Pra vocês que moram em cidades, imaginem o quanto essas bobagens fazem falta.

Eu já sei o estado e a região em que quero morar. Espero que possamos mudar pra lá antes de os meninos entrarem na adolescência. Enquanto não chega o momento olho pras montanhas e fico suspirando.

É dureza morar num lugar onde a gente se sente limitado. Ainda tem a questão social: o enturmar. Aqui no Capão existem mil "panelinhas": os veganos, os artistas, os do circo, as mães, os malucos de BR, os nativos, os empreendedores, os ateus, os crentes, os católicos, os espíritas, os atletas, os das terapias alternativas, os chiques, os que andam descalços com cachorros em volta, as femininas, os pingurços, etc, etc... E adivinhem de qual grupo faço parte? Dos excluídos. Exatamente. Nenhum. Com três crianças não consigo administrar tempo e toda a logística pra participar de algo com regularidade. Resultado: me contento com umas voltinhas na Vila ou em cachoeiras nos dias de folga. Mas eu queria mais! Gosto de gente, de convívio, de profundidade.

Por falar em não regularidade: não estou conseguindo praticar atividade física. Nem caminhar. Até tomar um pouco de sol é difícil. Fico envolvida na rotina da casa e dos meninos que acabo deixando em segundo plano. Racionalmente sei de tudo, mas na prática... Todo e qualquer tempinho de boa só quero descansar. A preguiça de andar na lama ou na poeira, sob sol ou sob vento/garoa/chuva impera. Assim vão passando os dias e me torno uma planta murcha no canto da casa. Resultado: corpo parado, zero hormônios de prazer e bem estar e muito hormônio de estresse.

Outras coisas simples que eu sempre gostei e me faziam bem já não consigo fazer, tipo ouvir música, dançar, costurar, cuidar das plantas ou preparar uma comida gostosa. Os meninos não deixam. Tudo o que vou fazer é com eles ao redor futricando, se colocando em perigo, brigando, chorando ou atrapalhando. Aí se não estiver nas demandas normais (banhos, fraldas, cozinha, conflitos, etc) fico como uma estátua no sofá, amamentando. No máximo assistindo algo ou fuçando no celular.

Estou me sentindo uma velha rabugenta. E feia. Da última gestação fiquei com a barriga aberta. Trem estranho. Uma barriga que nunca me pertenceu. Estrias, celulites e pele mole pra todo lado. Cabelos brancos caindo horrores. Sinto que sou uma gelatina derretendo. Rugas, olheiras e manchas no rosto. Credo. Parece que estou mais morta que viva.

Sinto tanta falta de viajar... Nossa... A última vez que vi o mar foi em João Pessoa antes de mudar de lá pra cá em abril de 2014. 5 anos sem mar. Pronto: morri. Mesmo que a gente possa vir a viajar com frequência um dia, não será a mesma coisa. Eu tinha um mapa do Brasil que eu abria e com a mochila nas costas decidia a rota. E caso aparecesse algo legal que desviasse a rota, tudo bem. Agora? Não vou nem na cidade vizinha a 20km de casa. Aí entra um dos maiores sonhos que tenho: aprender a dirigir. Isso depende de três coisas: 1- alguém pra cuidar dos meninos 2- boa vontade/tempo do Víni me ensinar 3- dinheiro pra tirar carteira. Ou seja, vai demorar. Não sei como fui capaz de passar 5 anos dentro de uma faculdade, em vez de tirar CNH!

Como último tópico pra chorar as pitangas quero mencionar o tanto que sinto falta de escrever. Tenho várias ideias para blogs e até livros. Mas é impossível eu ficar na frente do computador por mais de cinco minutos sem ninguém pular em cima, chorar, puxar meus peitos e pedir "Peppa". Minha maior frustração. Escrevo uns três textos mentalmente por dia. Tenho certeza que quero ser escritora.

Bem, até aqui deu pra ter uma noção dos motivos pelos quais me sinto cansada e triste. Tem outros, mas nem quero mencionar.

Desculpe tomar o precioso tempo de vocês com este textão, reclamando da vida. Mas eu precisava desabafar senão eu ía explodir. (Mais um tópico: ausência de amig@s próxim@s para conversar ao vivo. Todo mundo nos seus próprios "corres", até as fiéis amigas distantes.)

Não se enganem com fotos minhas sorrindo com a família em lugares bonitos como num comercial de margarina. Consigo ser falsamente bela, mesmo triste. A gente perde o tarja preta, mas não perde a pose! Rsrsrs Claro que não vou escancarar a depressão no Facebook. Também peço a discrição de vocês. Mas por aqui me senti à vontade para lhes dar a real. Peço carinho, respeito e compreensão. Dispenso julgamentos, sentimentos de pena e cobranças. Não precisa dizer "Você tem que fazer isso e aquilo." Eu sei o que preciso fazer. Só preciso conseguir. Só emanem para mim boas vibrações e orações. Também aceito ajudas reais, tipo ficar com os meninos pra eu conseguir fazer algo. Também aceito links para bons textos, filmes, palestras ou qualquer coisa útil. Na atual conjuntura até piada é útil! Rsrsrs Também aceito doação de livros espíritas, ou livros virtuais. Também aceito presentes como flores, mudas, frutas ou chocolate. Rsrsrs Qualquer coisa que possa levantar o astral de quem está derrubada. (Com certeza as orações são as mais eficazes.)

Peço desculpas às amigas queridas a quem não estou conseguindo "cuidar", dar a atenção que acho que merecem. Depois que eu me recuperar voltarei a pentelhar vocês (e suas crias).

Amo vocês. Obrigada por serem meus "orelhões". Sigo no mantra: "Vai passar."

Júnia Patrícia.
Maio 2019.

2017-12 Para a amiga

Bom dia, comadre.

Acabei agora de ler o texto sobre Aldeia.

Estou em êxtase.

Acho que gosto tanto de você por isso: você entende exatamente o que sinto, o que passo, o que sonho, cada alegria, cada perrengue...

E não só entende: você tem sempre uma palavra de apoio, de informação e esperança (otimismo + fé + força + coragem).

Estão passando mil coisas na minha cabeça!

Mal consigo escrever!

Esse sentimento e a coisa física da Aldeia é o que buscamos! Eu, Víni, você e minhas amigas que já despertaram para um estilo de vida mais simples, humano e real!

No Capão, mais especificamente na minha rua, eu experimentei viver em uma Aldeia. Durante uns momentos até fiquei incomodada com a falta de privacidade. Mas entendi que os benefícios são muito maiores que os sacrifícios. Em vários momentos, desde que fui pra lá como moradora, recebi carinho e apoio de um jeito que nunca tinha acontecido antes. O auge foi o parto de Hugo. Nossa... Sem palavras! Sempre me emociono!

Deus é bom. Sempre me ensina o que preciso. Eu queria viver isolada, numa casa confortável, num lugar silencioso e longe de vizinhos. Queria não ter ninguém querendo saber da minha vida e também não queria saber da vida de ninguém. Pronto. Vivi dois anos assim aqui nessa fazenda no interior de Goiás. Amarguei a solidão. Implorei por uma visita qualquer. Aprendi a ficar feliz quando a casa enche de crianças gritando e bagunçando. Passei a visitar Dona Zélia, que aos 76 anos vive quase sozinha (apenas com o marido que trabalha o dia todo com o gado), após ter criado 8 filhos. Vejo a solidão dela e tenho medo. Já entendi o recado: isolamento não é o melhor caminho.

É preciso relacionar! Dar, receber, ensinar, aprender, cuidar, se deixar ser cuidado... Amor é via de mão dupla. As relações são construídas na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença e em todos os altos e baixos da vida.

Tenho sorte de entender isso. Tenho sorte de ter pessoas na minha vida como Víni, como você, como a família da rua do Capão.

Agora estou me sentindo mais perto dos meus irmãos, com suas dores, suas lutas, suas alegrias, seus defeitos e qualidades. Vou escrever um texto para minhas irmãs e tentar me aproximar delas.

Estou muito emocionada agora. Vou tentar organizar os pensamentos ao longo do dia. Depois abro meu coração contigo com mais calma.

Obrigada por ser luz e me iluminar. Espero um dia te fazer bem tanto quanto você me faz.

Júnia Patrícia - Dezembro 2017

2018-06 Para a amiga

Bom dia, minha amiga-irmã-referência de determinação, força e coragem! (E beleza física, que nem precisava.)

Desculpe a demora em responder. Batidão intenso por aqui. Quase nunca tenho tempo, disposição, silêncio, privacidade, energia elétrica, bateria no celular e internet funcionando... São muitos fatores que precisam dar certo junto pra eu conseguir responder as mensagens. Rsrsrs

Hoje estou numa fase, digamos, interna. Dedicação total à família e ao lar. Mas daqui a poucos anos tirarei meus sonhos da gaveta, voltarei a estudar e trabalhar, tirarei carteira de motorista, etc. Tenho minhas conquistas individuais pra fazer. Eu vou conseguir. É só questão de tempo. (Só Deus sabe o quanto quero tudo isso.)

E vamos nos apoiar em todas as nossas lutas, como sempre, graças a Deus. E em breve veremos nossos filhos grandes, cumprindo suas missões e poderemos ficar tranquilas e voltar a dar atenção à nós mesmas.

Preciso completar o textão com algumas informações:

O ritmo do dia é fortemente influenciado pela noite anterior. Se a noite foi tranquila, se todos dormimos direto, se dormimos as horas suficientes, o dia transcorre de boa. Mas se um de nós dormiu mal, principalmente se foi um dos meninos, os outros quase não dormiram também. Se for resfriado, fica difícil porque preciso passar a noite sentada ou em pé para que o menino respire melhor. Se for dor de barriga, aumenta a demanda com as idas ao banheiro. E como o quarto e o banheiro fica em andares diferentes, fica super cansativo subir e descer escadas com criança toda hora. Se um chora, o barulho acorda todos da casa. Se chove forte, com muitos ventos, raios e trovões, a gente fica em estado de alerta e não descansa bem. Isso acontece com uma certa frequência. Quem tem filho sabe sobre essas variáveis que comprometem o bom funcionamento dos nossos corpos durante o dia. Inclusive se não dormimos bem por algumas noites seguidas, ficamos com dor de cabeça, mal humor e lentidão. Por isso, as noites de sono são sagradas e fazemos de tudo para que sejam tranquilas e reparadoras.

Outra coisa importante é nossa interação com a natureza aqui no Capão. O clima é quem dita o estilo do dia. Se amanhece chuvoso e frio, as atividades são mais dentro de casa, é um tipo de alimentação e não tem como fugir dos eletrônicos. Se amanhece de sol, já despacho as crianças pro quintal, Marcelo vai brincar com os vizinhos, eu tento tomar um pouco de sol e ouço rádio. Esse detalhe faz toda a diferença no meu bom humor. Ainda mais agora que Marcelo passa as manhãs na escola, estou me esbaldando com rádio (rádios de BH via web) e músicas. Canto, danço enquanto faço as coisas da casa e relaxo. Além do clima, tem as plantas em geral, com quem temos uma relação muito próxima. Por exemplo agora é época das quaresmeiras que ficam muito roxas enfeitando a paisagem. Tem também as árvores frutíferas que bombam no Vale nos dando frutos, sombra e felicidade. Ah, o céu do Capão é um trem de doido! De dia ou de noite, com lua ou com estrelas, com chuva ou sol... Mas lua cheia e pôr do sol até as crianças ficam eufóricas. É lindo demais! Às vezes rola até fogueira para apreciação.

Um capítulo à parte é a alimentação saudável à qual temos acesso fácil aqui, a um preço barato comparado a muitas outras cidades. Muitos orgânicos são vendidos na feira, nas quitandas, mercados e de porta em porta. Tem até um rapaz que entrega leite de vaca não industrializado em casa (R$3,50 o litro!). Várias opções de alimentos vegetarianos, como pães, tortas, pizzas, sanduíches, salgados, PF's, doces, etc... Tem gente que vende até peixe fresco na porta da gente! A feira além de oferecer diversos produtos bons e baratos, ainda é um ponto de encontro das pessoas. Na feira tem até japonês de verdade vendendo comida japonesa! Tem capoeira, meditação, a criançada brincando livre, malucada fazendo malabares, outros tocando música... Tudo ao mesmo tempo!

A interação social no Capão é um espetáculo à parte. Uma simples ida ao mercado pode ser repleta de abraços, sorrisos, ajudas (eu que o diga carregando crianças e sacolas morro acima) e surpresas (como encontrar velhos amigos e conterrâneos, ou animais livres encantando o dia). Sem falar na quantidade e variedade de eventos culturais como circo, música, dança, medicinas/encontros de terapias de cura, palestras, mutirões ou mesmo uma pelada no campinho... E os noturnos que nem sei...

A cooperação vicinal também me deixa impressionada! Desde situações especiais como um parto em casa até situações simples do cotidiano lá estão os vizinhos participando e dividindo as alegrias e tristezas. E todo mundo ajuda a criar a meninada. É um cuidado mútuo que eu não vejo nas cidades grandes. Diariamente vem pessoas na minha casa trazer algo gostoso, ou brincar com meus meninos, ou contar uma novidade, ou chorarmos juntos um luto... Mesmo sem sair de casa eu interajo e me conecto com o mundo (experimentei viver isolada em Goiás e não gostei.).

Texto ainda em construção. Nem comecei a falar sobre meus sentimentos, sobre planos, sobre visão ideológica e política... Sobre desafios diários. Sobre a vida a dois, as alegrias e dificuldades...

Escrever é minha forma de expressão. E minha melhor forma de comunicação. Apesar de estar fora de moda. "Ninguém" quer mais ler mais de três linhas. Preferem "ler as figuras".

Eu também aprecio uma boa conversa, mesmo que seja por telefone. Mas quem tem paciência e ambiente silencioso pra conversar por meia hora com um amigo? Quem quer se desconectar das outras coisas e conectar só no interlocutor?

Nós (você e eu), os amigos à moda antiga somos assim. Mas difícil estar num ambiente favorável, com os recursos necessários, com disposição física e mental, e as duas pessoas disponíveis ao mesmo tempo, né? (As duas pessoas dispostas a priorizar um diálogo ao mesmo tempo é raridade.)

E sem criança pentelhando, né!? Kkkk

2020-04 Corona Vírus Texto 4

Nos anos 2016 e 2017 eu vivi uma árdua fase de isolamento social. No início eu achei incrível, morar numa fazenda no interior de Goiás, as árvores do nosso quintal cheias de tucanos, papagaios e outras lindas aves. Eles faziam tanto barulho! Aquele céu lindo, a cada dia um pôr do sol mais bonito que o outro no cerrado. Morávamos Víni, Marcelinho com apenas um aninho e eu, depois engravidei de Hugo. Víni saía pra trabalhar e eu ficava sozinha com o pequeno durante o dia. Era incrível. Uma casa grande, toda térrea, com uma imensa varanda coberta na frente e uma ótima área de serviço atrás, com um tanque enorme, piso de cerâmica, paredinhas ao redor. Um ambiente super gostoso, com acesso ao quintal gramado, com vista para as mangueiras e outras árvores no fundo da fazenda. Eu passava muito tempo lá, cuidando da casa, da cozinha, da hortinha e do jardim dos fundos. Era onde eu tomava sol, e Marcelinho banho de mangueira e bacia.

Tínhamos uma área cercada no nosso quintal, que fazia divisa com as outras partes da fazenda onde o dono criava algumas cabeças de gado, galinhas e porcos. Nosso quarto ficava há poucos metros do curral. Até me acostumei a ouvir os mugidos das vacas a qualquer hora. Era bom… Acompanhávamos o crescimento dos animais, com frequência nascia mais um, era tão legal! (Pena que de vez em quando algum sumia… O dono abatia. Ficava um clima triste no ar...)

A casa de vizinhos mais próxima ficava a dez minutos de caminhada, atravessando o pasto. Eu gostava de passear com Marcelinho no final da tarde, bem no horário em que as vacas paridas ficavam soltas com seus filhotes no pasto que dava o acesso da casa até a estrada. Era uma aventura fazer a travessia. As vacas nos olhavam meio bravas e eu tinha que demonstrar coragem, inclusive quando eu estava com Marcelo pequeno e Hugo no barrigão. Às vezes tinha que andar com um pau na mão. Eu invadia as casas dos vizinhos com uma desculpa esfarrapada qualquer, só para Marcelinho brincar com as crianças e eu com as donas das casas. Assim iniciei algumas boas amizades e aprendi muito sobre a cultura goiana

O nosso convívio e nossa rotina em casa era uma delícia, uma paz. Mas eu sentia muita falta de ver gente, de conversar, de sair. Principalmente durante o período de maior trabalho do Víni, que saía para apagar fogo e não tinha hora de voltar. Eu olhava aquele céu cinza, amargava o calor e sentia aquela agonia misturada com medo, ao mesmo tempo em que tinha que proteger meus filhos. O isolamento social me doía na alma. Eu emendei um puerpério no outro, então os pensamentos ficavam ecoando na minha cabeça, eu pirava no convívio comigo mesma, sentia uma aflição inexplicável. Era muito contraditório valorizar e amar toda a parte boa, a nossa privacidade, o silêncio, a casa sempre limpa e arrumada, todo aquele aconchego e ninguém pra dividir, o que era a parte ruim. Preparava comida lindamente, punha a mesa com toda a pompa e circunstância, espalhava essências bem cheirosas na casa, ouvia música de qualidade, só entre nós. Aquilo me dava nos nervos! Como era possível ter tanta riqueza e não ter com quem compartilhar!?

Foi um período em que me senti invisível, sem importância para ninguém além do meu marido e filhos. Ainda mais que durante todo o primeiro ano não tínhamos internet em casa, e o celular funcionava mais ou menos. Eu vivi dois anos de quarentena e nem sabia que isso tinha nome. Por isso essa quarentena agora é fichinha, estou passando por ela super de boa. Já sofri tudo o que tinha pra sofrer naquela época.

Depois da temporada no interior de Goiás, passei mais dois anos de isolamento mediano no Capão, principalmente durante o ano passado, que foi primeiro ano de vida da caçula Catarina, onde amarguei o último puerpério e vivi sim, muito isolada. Mas não era isolamento geográfico, era mental e individual. As paredes da casa me sufocavam. Até as montanhas ao redor me causavam desespero. Tinha vez que eu ficava uma semana sem pôr os pés no quintal, dava um “trem” na minha cabeça, não sei explicar, eu estava mergulhada naquele universo das minhas crias, não queria me misturar ao mundo lá fora, sujar os pés, pisar na lama ou poeira, não queria expôr os meninos a nenhum risco. Era mais confortável ter acesso aos recursos do lar do que ir pra rua e precisar das coisas e não ter. Então ficava lá “doidona fritando” sozinha, mais uma vez invisível. Se não fosse as consultas regulares com a psicóloga do posto de saúde eu teria pirado literalmente.

Graças a Deus passou. Assim que a pequena completou um ano eu comecei a trabalhar no cartório da vila, a dois quilômetros de casa. Até a caminhada para o chegar no trabalho me faz bem, além dos encontros casuais com as pessoas, um papinho rápido e despretensioso que melhora o humor no dia. Agora estou no céu: vejo gente, sou vista, converso, e participo de momentos importantes nas vidas das pessoas da comunidade. Agora pertenço!

Sou sociável, gosto de gente, de ajudar, de ouvir, de ser ouvida, de ver as coisas fluindo, de enfrentar os desafios e ir superando cada um. Estou numa fase boa. Sem falar no quanto estou curtindo estar trabalhando fora enquanto o marido fica de dono de casa.

A quarentena está sendo um paraíso para mim. Estou colocando em dia o serviço interno do cartório, sem as interrupções do atendimento externo. Estou trabalhando no ambiente limpo e silencioso. Uma delícia. Tudo a seu tempo.

2020-03 Corona vírus - texto 3

Ainda bem que sexo com o cônjuge é de graça e é possível ser praticado em casa. Sério. Estou só imaginando a vida dos solteiros que tinham que sair "à caça". (Risos) O jogo virou: agora são só os casados que transam.

Uma boa oportunidade para os casais darem atenção para a relação, fazerem uma lua de mel e renovarem os votos e hábitos que cultivam o amor.

Mas atenção: se previnam, este não é um bom ano para engravidar. Já basta o medo das mortes e termos que nos cuidar. Agora imagine ter um filho a caminho nesse contexto?

2020-03 Corona vírus - texto 2

Confesso que estou um pouco excitada. Estou curiosa em como vai ser para todas as sociedades daqui a um ano ou dois. Atualmente estamos no olho do furacão, sob uma aparente calmaria, vendo tudo girando ao redor. O fato que estamos no início da fase de mudança mais revolucionária dos últimos cem anos, e nem os mais estudiosos serão capazes de prever o que vai acontecer. Cultura, artes, alimentação, economia, atividades laborais, convívio social, relações familiares e amorosas, estilos de estudo/aprendizado, viagens, tudo isso e muito mais serão reinventados. Eu queria ter o poder de dar uma espiadinha no futuro a médio prazo. Imagine, muitas coisas que estavam em alta, da noite pro dia ou vão deixar de existir ou vão perder a importância, e vice-versa. Um exemplo bobo mas que pode ser um bom começo é: serviços de salão de beleza. Beleza "montada" e "capitalizada" importa neste momento? Quem vai investir dinheiro e tempo nisso? Alguém vai se importar se as pessoas estão mais ou menos enfeitadas? Agora as pessoas estão aparecendo com seu visual a la quarentena ou home office: cara lavada, roupas simples num cenário igualmente simples e real. E depois que o furacão passar, como vai ser?

2020-03 Corona Vírus - Texto 1

Uau… A vida é uma caixinha de surpresas… Não imaginava que iríamos ver uma tragédia tão grave em nível mundial que afetasse a todos os seres humanos, de todas as classes sociais, todas as idades, de todos os lugares, etc. Bem, é óbvio que quem tem melhores condições de vida, de informação, de mente mais evoluída, está numa condição um pouco mais favorável que quem não tem acesso a estes recursos. É triste saber que há os mais frágeis que estão vendo o vulto da morte rondando ao seu redor.

Ainda está tudo meio confuso, minha ficha acabou de cair sobre a gravidade da situação. Sobre o fato de que vamos enfrentar meses de recessão, de clausura, de profunda escassez financeira, de reorganização das relações com o tempo, o espaço, a natureza e nossos irmãos humanos.

A impressão que eu tenho é que estávamos numa festa à fantasia lotada, sob efeito de substâncias que alteram a percepção, todo mundo meio chapado, todo mundo achando tudo lindo, o movimento, o barulho, todo mundo iludido na mesma viagem. E de repente caiu uma baita tempestade que acabou com a energia elétrica, com a música, derreteu as fantasias e todos começaram a ver e a serem vistos tais como são, cara lavada, sem máscaras, nus e crus. Todo mundo se olhando, uns entendendo mais rápido que outros que a festa acabou, uns se organizando para dividir a comida, para proteger os mais frágeis, outros ainda loucões nas suas viagens, uns em pânico, outros só observando, uns com o c* na mão, sabendo que chegou a hora de colher exatamente o que plantaram. Mas a situação é de fato, o fato de que a festa acabou e que é preciso voltar à realidade da simplicidade e fragilidade da vida humana.

De que vai adiantar títulos, cargos, crachás, placas com nomes na porta, condomínios de muros altos, roupas elegantes e saltos altos, e todos os tipos de ilusões que fazem alguns humanos acreditarem que são melhores que outros? Agora quem vai entrar na moda são os que eram discriminados até poucos dias atrás: os roceiros, os agricultores simples, os que oferecem para pagar um advogado ovos de suas galinhas e vegetais da sua horta ou roça, as benzedeiras, as parteiras, as cozinheiras, as donas de casa com mania de limpeza, as vovós e vovôs com seus saberes ancestrais, os mestres de culturas tradicionais, quilombolas e indígenas, os velhos que cuidam dos jardins, quintais e animais, as crianças que trazem a esperança e a alegria, as mulheres que carregam as vidas em seus ventres e cuidam de todos em seus lares e em sua aldeia. Incluo nessa lista os velhinhos farmacêuticos que cuidam de suas comunidades como se fossem médicos, que têm seu conhecimento e experiência respeitados. Como diz a passagem bíblica: “Os humilhados serão exaltados e vice versa.”

Agora é só o início de uma fase que ninguém sabe como vai se desenrolar. Todos, sem exceção, estão saindo de sua zona de conforto, e terão que se adaptar. E uma das adaptações importantes para muita gente vai ser aprender a cuidar de si próprio, e dos seus. Cuidar mesmo, colocar a mão na massa. Imagine um casal que trabalhava muito e mantinha os filhos sob cuidados terceirizados, e seus lares também: agora não terão funcionários, terão que limpar sua própria sujeira, cozinhar sua própria comida, passar os dias com seus filhos e conviver com todas as dificuldades que se enfrenta num lar, inclusive seu próprio desgaste físico e emocional, com a nova relação com o tempo, o espaço, a alimentação, a movimentação física e o convívio com os seus sob o mesmo teto. Imagine a paranóia de quem mora sozinho, mas antes tinha faxineira, porteiro, disque isso, disque aquilo, toda a rede que fazia por ele o que ele nunca se propôs a fazer? Inclusive gente que não tinha condições financeiras de pagar pelos serviços, mas tinha uma mãe (ou outra figura materna) que ía cuidar da gestão do seu lar?

E gente que era bom em cumprir ordens e os papéis que se propunha a cumprir, mas que agora se vê tendo que administrar o próprio tempo, espaço e si próprio? Por exemplo uma pessoa que trabalhava e cumpria as ordens do chefe, que ía pra academia e seguia as orientações do professor de educação física, que ía pra igreja e seguia as orientações do líder, que limpava sua casa, suas roupas e seu carro no sábado, que ía almoçar na casa da sogra ou mãe no domingo e ali cumpria seu papel familiar, etc… E que agora essa pessoa acorda de manhã, tem o dia inteiro pela frente, tem as tarefas a serem executadas, mas ele mesmo precisa organizar o tempo, a ordem de prioridades, os recursos (buscando ter consumo consciente e regrado), as ferramentas, e tudo o mais necessário, solicitando ajuda o mínimo possível de outras pessoas. Disciplinar a si mesmo não é tão simples quanto parece.

Da mesma forma que a Terra continua girando, que todos os dias têm 24 horas igualmente para todos, que logo após um dia vem uma noite, essa fase vai vir para todos os humanos. Muitos vão desencarnar. E outros tantos vão sobreviver. Como dizia o professor de física de um cursinho em BH, Jaques: “Haverá dor e ranger de dentes”. Sim, com dor e sofrimento, quem sobrar vai ter que trabalhar muito para seguir adiante, para construir novos recursos, para desconstruir velhos conceitos e pré-conceitos, para iniciar uma vida nova. Eu particularmente preferia que viesse algo de força maior e acabasse com a humanidade de uma só vez, que todos nos encontrássemos já do lado de lá, preparados para a próxima fase, mas minha opinião não foi consultada nem vale nada. (Risos) E cada espírito se encontra num nível evolutivo, então cada um vive conforme o grau alcançado, assim vão todos se ajudando a evoluir individualmente, por bem ou por mal…

Enfim, a Terra já passa por grandes, digamos “sacudidas” mais ou menos de cem em cem anos, que leva uma porção da humanidade. Depois quem fica segue com os aprendizados, cuidando dos bebês que chegam e renovam as sociedades. Bem, neste momento percebo que faz muito sentido da expressão popular que diz: “Aceita que dói menos.” A partir da aceitação abrandamos as emoções e conseguimos racionalizar melhor.

Peço licença ao leitor para propor um exercício de imaginação, que pratica a empatia e traz para mais perto a noção da gravidade da situação. Vamos transformar números em sentimentos. Imagine que você tem 5 conhecidos, pessoas que passaram pela sua vida num momento legal. Pense em cada um, nos seus nomes, rostos, vozes. Agora pense que eles estão lá na Itália, que eles morreram e você vai ao funeral. Sinta o mal estar, o cheiro de velório e o clima triste e doloroso. Pois bem, agora pense em cinco amigos importantes para você, que moram em outros estados no Brasil. E pense que eles morreram em decorrência de terem sido contaminados com o corona vírus. Sinta a dor… Agora pense nos cinco velhinhos que você mais ama, como seus avós, ou pais ou avós de amigos que você gosta. Pense que eles morreram. Sinta… Agora pense em cinco pessoas do seu círculo social, colegas de escola ou trabalho. Pense que morreram nas mesmas condições. Agora pense em cinco vizinhos. Agora pense nas pessoas que você mais ama, as mais próximas, seu pai, sua mãe, seus filhos, seu companheiro (a). Sinta… Agora pense que foi você que morreu, e no buraco que sua falta está deixando nas vidas dos seus entes queridos. Tanto a sua falta emocional quanto prática, por exemplo, a falta que vai fazer aos filhos pequenos. Agora sinta a dor e pense… Até chegar aquele pensamento: “Quanta dor! Eu queria tanto ter a possibilidade de voltar atrás e fazer diferente, de fazer algo para evitar tanto sofrimento!” Agora volte ao momento presente, respire aliviado de ter sido apenas imaginação. Mas pense e aja no sentido de colocar essa frase em prática: “O que eu posso fazer para evitar essa tragédia?” Sim, dê graças a Deus por ser possível e aja.

Passou uma coisa interessante pela minha cabeça: que bom que para mim e para as pessoas próximas a mim é fácil e praticamente de graça poder escapar ileso dessa pandemia. Nós temos casa, acesso à informação, intelecto desenvolvido, conhecimento, acesso a recursos como água limpa, sabão e a possibilidade de nos isolarmos até podermos retornar à rotina (num futuro de prazo ainda incerto). Para muitos de nós até com bastante conforto e capacidade de sair com bons aprendizados e experiência, ou seja, melhor do que estávamos ao entrar na crise. Mas aí vêm os pensamentos sobre quem não tem acesso a tudo mencionado… E dói o coração só de imaginar.

Portanto, quero escrever um sub-textinho a seguir:

Agradeça se você:

Tem saúde plena, tem o corpo funcionando legal.
É jovem.
Tem um teto.
Tem chuveiro quente.
Tem água limpa em casa.
Tem comida em casa.
Não é o provedor da família.
Tem quem se preocupa com você.
Tem com quem se preocupar.
Tem acesso à informação.
Tem amigos.
Tem família.
Tem um amor verdadeiro para se ampararem.
Tem filhos para te dar a força do amor e da esperança para seguir adiante.
Sabe ler. Imagine se você tivesse que passar por essa fase sem a possibilidade de leitura?
Tem acesso a recursos tecnológicos para te informar e te entreter.
Mora numa casa com espaço e condições adequadas para plantar alimentos.
Mora num lugar limpo, sem excesso de barulho e outras formas de poluição.
Tem onde morar!
Está perto das pessoas que ama.
As pessoas que você mais ama estão vivas.
Goza das plenas faculdades mentais, tanto para entender o que se passa, quanto para escolher como vai passar.
Tem possibilidade de fazer escolhas.
Tem condições de aproveitar o tempo de quarentena como melhor lhe aprouver.
Tem algum conforto para usufruir durante a quarentena.
Não é responsável por ninguém além de você mesmo.
Aprendeu a cozinhar, limpar sua sujeira, lavar sua roupa, e cuidar de si.
Sabe dançar. Aproveite para se exercitar e se divertir. Nunca houve momento tão propício.
Pode ouvir música, ou cantar, ou tocar um instrumento.
Tem capacidade de fazer pequenos consertos em casa, ou até grandes. (Uma boa oportunidade para fazer aquela pequena reforma que estava esperando você ter tempo.)
Tem a possibilidade de plantar, cuidar de um jardim ou quintal ou horta.
Tem a possibilidade de fazer serviços manuais, como costurar, consertar objetos domésticos, etc.
Tem vizinhos legais, com quem tem uma boa relação e possa fazer trocas úteis.
Pode exercitar sua fé em seu lar.
(A lista pode ser editada e à ela acrescentadas várias coisas.)
Muita gente, muita mesmo, não tem várias dessas coisas mencionadas acima.

Portanto, agradeça, respeite, cuide, se acalme, se doe.

Aproveite também para pedir perdão, para perdoar, para dizer que ama, que está com saudade e dê o melhor de si para quem você ama. (De preferência via recursos tecnológicos que dispensam o contato físico entre os humanos.)

Eu, Júnia, particularmente estou relativamente bem: moro num lugar imerso na natureza, junto com meu esposo e meus filhos. Somos felizes em nossa humilde residência, temos recursos materiais que nos garantem saúde, segurança, conforto e bem estar. Temos vizinhos amigos, temos acesso a mercados que vendem comida, mas também temos algumas plantas que nos oferecem alimentos no nosso quintal, e os vizinhos também. Ou seja, de fome não morreremos tão cedo. Graças a Deus moramos em casa própria, não vivemos o desespero da pergunta: “Como vamos pagar o aluguel este mês?” O trabalho do meu esposo praticamente foi extinto durante a crise do corona. Mas graças a Deus eu estou trabalhando e acredito que não serei despedida, com este salário conseguiremos nos alimentar durante a crise e garantir os recursos mais básicos. Mas não é porque estamos relativamente bem que não nos preocupamos com o resto do mundo. Pelo contrário, estamos em estado de alerta, nos cuidando para não sermos contaminados nem contaminar ninguém. Também estamos preocupados com as pessoas que amamos que estão longe que fazem parte do grupo de risco. E as que moram perto também.

Eu sempre pensei muito nas vítimas de guerras, de conflitos, de tragédias ambientais, de tragédias em geral… Sempre pensei se eu fosse uma delas, com parte da família morta, andando procurando um novo lugar para viver, com filhos pequenos, apenas com a roupa do corpo, sem recursos, desestabilizada, com medo e ao mesmo tempo com força para recomeçar a qualquer custo. Sempre doeu pensar isso tudo, daqui da minha zona de conforto. Mas era um pensamento de certa forma distante, que me fazia trabalhar, vibrar, amar, cuidar, respeitar e viver quieta na minha, causando o mínimo de impacto negativo possível. Mas agora meio que não existe lá e cá, não existe distância, estamos todos no mesmo barco, aliás, no mesmo Titanic que está afundando! O inimigo é invisível, porém muito poderoso e eficaz no seu poder de destruição.

No meio da escrita preciso dar uma volta, respirar um pouco, olhar o céu e beijar meus filhos e meu amor Víni. Pensar nisso tudo dá dor de cabeça.

Júnia Patrícia
03/2020

A seguir links para músicas e textos que estão fazendo sentido pra mim no atual contexto:

Priorize as prioridades
O processo é lento
Nova visão:
Bumerangue
Dança do patinho
E o mundo não se acabou
O dia em que a Terra parou:

2020-01 Textão da virada

Quase três meses sem poder escrever. Imaginem minha euforia interna? Textos prontos na cabeça, várias datas comemorativas e conquistas na sequência, emoções pulsando e eu sem conseguir ter oportunidade de colocar as ideias em ordem e expô-las na minha predileta forma de expressão. O verão costuma ser assim mesmo, intenso, rápido, emocionante, gostoso e cansativo. Assim como a depressão do inverno, a alegria do verão é previsível. Afinal, tudo começa com aquela sensação boa de mudança de ciclo de virada de ano, agradecimentos, convívio com a família e paz interior. Aí vem clima de férias. Logo no dia 9 de janeiro vem o aniversário do meu primogênito, que sempre me traz grandes reflexões e sensação de vitória conquistada. Em janeiro tem aniversários de várias pessoas queridas. Os aquarianos espalhando seu brilho no mundo e eu flutuando nas vibrações de alegria e amor. Logo depois vem fevereiro explodindo com meu aniversário que vira e mexe rola no carnaval. O auge! Música, alegria, festa e celebrações à vida bombam dentro de mim, mesmo que ao redor esteja tudo no silêncio da rotina. Só essas datas já alegram por si só, mas esta virada 2019/2020 veio carregada de significados e acontecimentos digamos, revolucionários. É muita coisa. Desligue o wifi, prepare o chá e sente na sua poltrona mais confortável que lá vem textão da JP.

Tudo começou com o aniversário de um aninho da minha caçula, já relatado no textão mais recente que consegui escrever. Foi junto com a cerimônia de fechamento de parto. Foi um trem doido… Enfim encerrei o puerpério de 5 anos que quase me fez desistir de viver.

Bem, já mais empoderada, com ganas de "recuperar o tempo perdido", já estava jogando para o universo que no ano novo iria colocar as crianças na escola e iria trabalhar meio horário apenas em dias úteis. Estava preparando o currículo e escolhendo para onde enviar. Eu queria um trabalho de escritório, onde minha ferramenta de trabalho fosse um computador, onde minha inteligência e habilidades fossem bem aproveitadas e estimuladas a aprender mais. Eu queria um emprego onde eu pudesse ir bem vestida, com as unhas feitas e eu pudesse estar elegante e séria. Eu moro num lugar pequeno, mais pra rural, turístico e com características bastantes peculiares. Então as opções seriam poucas. Eu pensando em estratégias para acertar no alvo, para meu perfil ser exatamente o que os empregadores do meu interesse buscam. Enquanto eu pensava em poucos dias antes do natal tudo fluiu que nem cheguei a imprimir nem um currículo. Vou ter que abrir um parêntese para contar essa parte mais detalhada.

Eu cobrei do meu esposo Víni que ele fosse ao cartório reconhecer firma num comprovante de endereço. Isso numa manhã de segunda-feira. Ao mesmo tempo eu senti no coração e disse: "eu que vou reconhecer sua firma. Eu vou roubar o emprego da menina do cartório." Quando chegou a noite do mesmo dia ele viu anunciado no grupo do Facebook daqui do Capão a divulgação de uma vaga para auxiliar administrativo, que pela pessoa ele deduziu que era para o cartório. Eu senti um frio na barriga. Na manhã seguinte redigi um e-mail de apresentação e enviei um currículo. Foi em meio à agitação matinal do meu trio bagunça, então nem pude caprichar muito. Na quarta recebi um e-mail de volta, da pessoa responsável, me chamando para conversar na sexta. Nem acreditei. Depois de 5 anos apenas como mãe e dona de casa escolhi uma roupa mais elegante, coloquei um saltinho, uma bolsa, um make leve e fui. (Só quem é mãe que só anda descabelada, amassada e com menino pendurado é capaz de entender.) Foi uma conversa simples e rápida. A Tatiane tem um jeito durão, mas demonstrou ter gostado de mim. Ela disse que o que chamou a atenção além do meu jeito de escrever foi eu ter mencionado no e-mail que gosto de burocracia. Parece engraçado, mas é verdade. (Posso escrever um textão só para explicar sobre isso!) Pois bem, já deixamos marcado para eu começar logo depois do natal, em treinamento para aprender o serviço junto com a funcionária que só ía ficar até dia 10 de janeiro. Saí de lá meio zonza, em êxtase. Será que minha hora de colocar a cara na rua tinha chegado!? Sim.

O sucesso da operação dependia do apoio de Víni e de Carol, minha amiga que me ajuda a cuidar da casa e das crianças. Tinha que toda uma engrenagem dar certo para eu conseguir ficar longe de casa por 6 horas diárias. Eles toparam e se desdobraram para me ajudar. Foi incrível. Uma avalanche de emoções…

Eu estava prestes a começar uma nova fase, tão desejada e importante. Eu tinha que conter a emoção e racionalizar. Aos poucos foi tudo se encaixando. Interessante foi que assim como eu havia desejado, o horário era de 8 às 14h, só em dias úteis. Ou seja, nem ía sacrificar o convívio com meus filhos.

Ao mesmo tempo que foi uma delícia ficar 6 horas longe de casa e dos meninos, foi um desafio. O peito gigante e dolorido ainda não tinha entendido que ficaria longe de Catarina. (Detalhe: um só, pois o outro foi abandonado a tempos.) Eu nunca tinha almoçado longe deles. Isso me faz falta. Eu gosto de cozinhar para eles, com eles e por eles. É um vínculo que criamos na alimentação. Agora readaptei, faço uma coisa que nunca gostei: vou para a cozinha à noite e deixo o almoço adiantado para facilitar para a Carol que passou a ficar responsável por eles, pela casa, almoço e lavagem de roupas. Tento deixar tudo esquematizado para dar certo. Todos ficamos mais cansados, mas a causa é nobre.

Importante mencionar que o salário que vou ganhar é o mesmo que pago para a Carol. Ou seja, fico no zero. Mas meu lucro ainda não é financeiro, é minha dignidade e minha saúde que estão em jogo. Depois quem sabe conquisto um salário melhor?

Uma parte difícil de acostumar é sair da cama cedo. Meus filhos dormem comigo, e normalmente durante a noite tem uma movimentação entre amamentação, idas ao banheiro, saga para matar pernilongos, às vezes resfriados, às vezes febres, às vezes dentinhos nascendo, etc, etc… Ou seja, sair da cama antes das 7h tendo dormido pouco é um grande desafio. Deixar os anjos e o papai dormindo na cama quentinha e começar a correria para sair é uma judiação comigo. Mas desde que começou nunca reclamei: levanto, tomo meu banho, preparo café da manhã, me arrumo, vou atendendo as demandas deles (fralda, café da manhã, higiene pessoal de três, carinho, colo, peito, troca de roupa, xamego no papai, etc). Ufa! Sair de casa antes das 8h linda e arrumada é uma maratona. E quando papai está no trabalho que leva 4 ou 5 dias fora? Eu conto com a ajuda de Carol entre 7:30 e 15:30h. Fora esse horário são eles grudados em mim, me demandando dobrado. Tem também as sagas do banho, da alimentação e de colocar para dormir. E passar as sagas das madrugadas sozinha… Só Jesus para dar força. (Fico me perguntando como as mães solo sobrevivem.)

Quase tive um infarto quando tive noção da quantidade de informação que teria que aprender na prática, sem curso preparatório, sem didática e sem auxílio presencial. Aprender a fazer fazendo. A superiora e o resto da equipe dão apoio via internet e telefone, com poucas visitas presenciais. Dentro de duas semanas eu estaria sozinha no cartório, sendo responsável pelo ambiente físico e legal. Ou seja, em poucos dias eu estaria assinando documentos importantes como certidões de casamento e nascimento, além de outros diversos. Isso me deu uma pirada…

O trabalho em si é bem legal. Eu gosto de verdade.

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...