Uau… A vida é uma caixinha de surpresas… Não imaginava que iríamos ver uma tragédia tão grave em nível mundial que afetasse a todos os seres humanos, de todas as classes sociais, todas as idades, de todos os lugares, etc. Bem, é óbvio que quem tem melhores condições de vida, de informação, de mente mais evoluída, está numa condição um pouco mais favorável que quem não tem acesso a estes recursos. É triste saber que há os mais frágeis que estão vendo o vulto da morte rondando ao seu redor.
Ainda está tudo meio confuso, minha ficha acabou de cair sobre a gravidade da situação. Sobre o fato de que vamos enfrentar meses de recessão, de clausura, de profunda escassez financeira, de reorganização das relações com o tempo, o espaço, a natureza e nossos irmãos humanos.
A impressão que eu tenho é que estávamos numa festa à fantasia lotada, sob efeito de substâncias que alteram a percepção, todo mundo meio chapado, todo mundo achando tudo lindo, o movimento, o barulho, todo mundo iludido na mesma viagem. E de repente caiu uma baita tempestade que acabou com a energia elétrica, com a música, derreteu as fantasias e todos começaram a ver e a serem vistos tais como são, cara lavada, sem máscaras, nus e crus. Todo mundo se olhando, uns entendendo mais rápido que outros que a festa acabou, uns se organizando para dividir a comida, para proteger os mais frágeis, outros ainda loucões nas suas viagens, uns em pânico, outros só observando, uns com o c* na mão, sabendo que chegou a hora de colher exatamente o que plantaram. Mas a situação é de fato, o fato de que a festa acabou e que é preciso voltar à realidade da simplicidade e fragilidade da vida humana.
De que vai adiantar títulos, cargos, crachás, placas com nomes na porta, condomínios de muros altos, roupas elegantes e saltos altos, e todos os tipos de ilusões que fazem alguns humanos acreditarem que são melhores que outros? Agora quem vai entrar na moda são os que eram discriminados até poucos dias atrás: os roceiros, os agricultores simples, os que oferecem para pagar um advogado ovos de suas galinhas e vegetais da sua horta ou roça, as benzedeiras, as parteiras, as cozinheiras, as donas de casa com mania de limpeza, as vovós e vovôs com seus saberes ancestrais, os mestres de culturas tradicionais, quilombolas e indígenas, os velhos que cuidam dos jardins, quintais e animais, as crianças que trazem a esperança e a alegria, as mulheres que carregam as vidas em seus ventres e cuidam de todos em seus lares e em sua aldeia. Incluo nessa lista os velhinhos farmacêuticos que cuidam de suas comunidades como se fossem médicos, que têm seu conhecimento e experiência respeitados. Como diz a passagem bíblica: “Os humilhados serão exaltados e vice versa.”
Agora é só o início de uma fase que ninguém sabe como vai se desenrolar. Todos, sem exceção, estão saindo de sua zona de conforto, e terão que se adaptar. E uma das adaptações importantes para muita gente vai ser aprender a cuidar de si próprio, e dos seus. Cuidar mesmo, colocar a mão na massa. Imagine um casal que trabalhava muito e mantinha os filhos sob cuidados terceirizados, e seus lares também: agora não terão funcionários, terão que limpar sua própria sujeira, cozinhar sua própria comida, passar os dias com seus filhos e conviver com todas as dificuldades que se enfrenta num lar, inclusive seu próprio desgaste físico e emocional, com a nova relação com o tempo, o espaço, a alimentação, a movimentação física e o convívio com os seus sob o mesmo teto. Imagine a paranóia de quem mora sozinho, mas antes tinha faxineira, porteiro, disque isso, disque aquilo, toda a rede que fazia por ele o que ele nunca se propôs a fazer? Inclusive gente que não tinha condições financeiras de pagar pelos serviços, mas tinha uma mãe (ou outra figura materna) que ía cuidar da gestão do seu lar?
E gente que era bom em cumprir ordens e os papéis que se propunha a cumprir, mas que agora se vê tendo que administrar o próprio tempo, espaço e si próprio? Por exemplo uma pessoa que trabalhava e cumpria as ordens do chefe, que ía pra academia e seguia as orientações do professor de educação física, que ía pra igreja e seguia as orientações do líder, que limpava sua casa, suas roupas e seu carro no sábado, que ía almoçar na casa da sogra ou mãe no domingo e ali cumpria seu papel familiar, etc… E que agora essa pessoa acorda de manhã, tem o dia inteiro pela frente, tem as tarefas a serem executadas, mas ele mesmo precisa organizar o tempo, a ordem de prioridades, os recursos (buscando ter consumo consciente e regrado), as ferramentas, e tudo o mais necessário, solicitando ajuda o mínimo possível de outras pessoas. Disciplinar a si mesmo não é tão simples quanto parece.
Da mesma forma que a Terra continua girando, que todos os dias têm 24 horas igualmente para todos, que logo após um dia vem uma noite, essa fase vai vir para todos os humanos. Muitos vão desencarnar. E outros tantos vão sobreviver. Como dizia o professor de física de um cursinho em BH, Jaques: “Haverá dor e ranger de dentes”. Sim, com dor e sofrimento, quem sobrar vai ter que trabalhar muito para seguir adiante, para construir novos recursos, para desconstruir velhos conceitos e pré-conceitos, para iniciar uma vida nova. Eu particularmente preferia que viesse algo de força maior e acabasse com a humanidade de uma só vez, que todos nos encontrássemos já do lado de lá, preparados para a próxima fase, mas minha opinião não foi consultada nem vale nada. (Risos) E cada espírito se encontra num nível evolutivo, então cada um vive conforme o grau alcançado, assim vão todos se ajudando a evoluir individualmente, por bem ou por mal…
Enfim, a Terra já passa por grandes, digamos “sacudidas” mais ou menos de cem em cem anos, que leva uma porção da humanidade. Depois quem fica segue com os aprendizados, cuidando dos bebês que chegam e renovam as sociedades. Bem, neste momento percebo que faz muito sentido da expressão popular que diz: “Aceita que dói menos.” A partir da aceitação abrandamos as emoções e conseguimos racionalizar melhor.
Peço licença ao leitor para propor um exercício de imaginação, que pratica a empatia e traz para mais perto a noção da gravidade da situação. Vamos transformar números em sentimentos. Imagine que você tem 5 conhecidos, pessoas que passaram pela sua vida num momento legal. Pense em cada um, nos seus nomes, rostos, vozes. Agora pense que eles estão lá na Itália, que eles morreram e você vai ao funeral. Sinta o mal estar, o cheiro de velório e o clima triste e doloroso. Pois bem, agora pense em cinco amigos importantes para você, que moram em outros estados no Brasil. E pense que eles morreram em decorrência de terem sido contaminados com o corona vírus. Sinta a dor… Agora pense nos cinco velhinhos que você mais ama, como seus avós, ou pais ou avós de amigos que você gosta. Pense que eles morreram. Sinta… Agora pense em cinco pessoas do seu círculo social, colegas de escola ou trabalho. Pense que morreram nas mesmas condições. Agora pense em cinco vizinhos. Agora pense nas pessoas que você mais ama, as mais próximas, seu pai, sua mãe, seus filhos, seu companheiro (a). Sinta… Agora pense que foi você que morreu, e no buraco que sua falta está deixando nas vidas dos seus entes queridos. Tanto a sua falta emocional quanto prática, por exemplo, a falta que vai fazer aos filhos pequenos. Agora sinta a dor e pense… Até chegar aquele pensamento: “Quanta dor! Eu queria tanto ter a possibilidade de voltar atrás e fazer diferente, de fazer algo para evitar tanto sofrimento!” Agora volte ao momento presente, respire aliviado de ter sido apenas imaginação. Mas pense e aja no sentido de colocar essa frase em prática: “O que eu posso fazer para evitar essa tragédia?” Sim, dê graças a Deus por ser possível e aja.
Passou uma coisa interessante pela minha cabeça: que bom que para mim e para as pessoas próximas a mim é fácil e praticamente de graça poder escapar ileso dessa pandemia. Nós temos casa, acesso à informação, intelecto desenvolvido, conhecimento, acesso a recursos como água limpa, sabão e a possibilidade de nos isolarmos até podermos retornar à rotina (num futuro de prazo ainda incerto). Para muitos de nós até com bastante conforto e capacidade de sair com bons aprendizados e experiência, ou seja, melhor do que estávamos ao entrar na crise. Mas aí vêm os pensamentos sobre quem não tem acesso a tudo mencionado… E dói o coração só de imaginar.
Portanto, quero escrever um sub-textinho a seguir:
Agradeça se você:
Tem saúde plena, tem o corpo funcionando legal.
É jovem.
Tem um teto.
Tem chuveiro quente.
Tem água limpa em casa.
Tem comida em casa.
Não é o provedor da família.
Tem quem se preocupa com você.
Tem com quem se preocupar.
Tem acesso à informação.
Tem amigos.
Tem família.
Tem um amor verdadeiro para se ampararem.
Tem filhos para te dar a força do amor e da esperança para seguir adiante.
Sabe ler. Imagine se você tivesse que passar por essa fase sem a possibilidade de leitura?
Tem acesso a recursos tecnológicos para te informar e te entreter.
Mora numa casa com espaço e condições adequadas para plantar alimentos.
Mora num lugar limpo, sem excesso de barulho e outras formas de poluição.
Tem onde morar!
Está perto das pessoas que ama.
As pessoas que você mais ama estão vivas.
Goza das plenas faculdades mentais, tanto para entender o que se passa, quanto para escolher como vai passar.
Tem possibilidade de fazer escolhas.
Tem condições de aproveitar o tempo de quarentena como melhor lhe aprouver.
Tem algum conforto para usufruir durante a quarentena.
Não é responsável por ninguém além de você mesmo.
Aprendeu a cozinhar, limpar sua sujeira, lavar sua roupa, e cuidar de si.
Sabe dançar. Aproveite para se exercitar e se divertir. Nunca houve momento tão propício.
Pode ouvir música, ou cantar, ou tocar um instrumento.
Tem capacidade de fazer pequenos consertos em casa, ou até grandes. (Uma boa oportunidade para fazer aquela pequena reforma que estava esperando você ter tempo.)
Tem a possibilidade de plantar, cuidar de um jardim ou quintal ou horta.
Tem a possibilidade de fazer serviços manuais, como costurar, consertar objetos domésticos, etc.
Tem vizinhos legais, com quem tem uma boa relação e possa fazer trocas úteis.
Pode exercitar sua fé em seu lar.
(A lista pode ser editada e à ela acrescentadas várias coisas.)
Muita gente, muita mesmo, não tem várias dessas coisas mencionadas acima.
Portanto, agradeça, respeite, cuide, se acalme, se doe.
Aproveite também para pedir perdão, para perdoar, para dizer que ama, que está com saudade e dê o melhor de si para quem você ama. (De preferência via recursos tecnológicos que dispensam o contato físico entre os humanos.)
Eu, Júnia, particularmente estou relativamente bem: moro num lugar imerso na natureza, junto com meu esposo e meus filhos. Somos felizes em nossa humilde residência, temos recursos materiais que nos garantem saúde, segurança, conforto e bem estar. Temos vizinhos amigos, temos acesso a mercados que vendem comida, mas também temos algumas plantas que nos oferecem alimentos no nosso quintal, e os vizinhos também. Ou seja, de fome não morreremos tão cedo. Graças a Deus moramos em casa própria, não vivemos o desespero da pergunta: “Como vamos pagar o aluguel este mês?” O trabalho do meu esposo praticamente foi extinto durante a crise do corona. Mas graças a Deus eu estou trabalhando e acredito que não serei despedida, com este salário conseguiremos nos alimentar durante a crise e garantir os recursos mais básicos. Mas não é porque estamos relativamente bem que não nos preocupamos com o resto do mundo. Pelo contrário, estamos em estado de alerta, nos cuidando para não sermos contaminados nem contaminar ninguém. Também estamos preocupados com as pessoas que amamos que estão longe que fazem parte do grupo de risco. E as que moram perto também.
Eu sempre pensei muito nas vítimas de guerras, de conflitos, de tragédias ambientais, de tragédias em geral… Sempre pensei se eu fosse uma delas, com parte da família morta, andando procurando um novo lugar para viver, com filhos pequenos, apenas com a roupa do corpo, sem recursos, desestabilizada, com medo e ao mesmo tempo com força para recomeçar a qualquer custo. Sempre doeu pensar isso tudo, daqui da minha zona de conforto. Mas era um pensamento de certa forma distante, que me fazia trabalhar, vibrar, amar, cuidar, respeitar e viver quieta na minha, causando o mínimo de impacto negativo possível. Mas agora meio que não existe lá e cá, não existe distância, estamos todos no mesmo barco, aliás, no mesmo Titanic que está afundando! O inimigo é invisível, porém muito poderoso e eficaz no seu poder de destruição.
No meio da escrita preciso dar uma volta, respirar um pouco, olhar o céu e beijar meus filhos e meu amor Víni. Pensar nisso tudo dá dor de cabeça.
Júnia Patrícia
03/2020
A seguir links para músicas e textos que estão fazendo sentido pra mim no atual contexto:
Priorize as prioridades
O processo é lento
Nova visão:
Bumerangue
Dança do patinho
E o mundo não se acabou
O dia em que a Terra parou: