quinta-feira, 30 de abril de 2020

2019-12 A borboleta está saindo do casulo

Sexta-feira 13 de dezembro de 2019.

Que dia! Que semana! Que fase! Uau!

Após um ano e dois dias do nascimento de Catarina, amanheci menstruada pela primeira vez. De verdade, com sangue líquido e bem vermelho, diferente da borra marrom de um mês atrás que havia me frustrado. Este fato significa muito pra mim. Meu corpo está voltando ao normal, estabilizando os hormônios, estabilizando a mente, enfim, se estabilizando como um todo. Em plena sexta-feira 13 de lua cheia, bem no dia marcado para realizar a cerimônia de fechamento de parto. Será que existem coincidências?

Um ano daquela tarde mágica… Não vou dizer que passou rápido, pois vivi intensamente cada segundo deste período. Mergulhei de novo nas minhas sombras do puerpério e em alguns momentos achei que não fosse possível sair. Foi um ano intenso. Trabalho, dedicação, exaustão, amamentei dois por seis meses, cuidei de três pequenos, foi forte. Senti medo, senti tristeza, senti vergonha, senti saudade, senti fraqueza, senti dor e fui posta à prova em vários momentos. Passei dias sem nem pôr os pés no quintal, não queria ver ninguém, ao mesmo tempo amargava uma dolorosa solidão e rezava pra aparecer uma pessoa amiga para levar à superfície para respirar. Claro que tiveram os momentos de luz, de alegria da simplicidade infantil, da superação de cada desafio e das conquistas. Mas digamos que tenham sido pontos de luz no céu bem escuro ao redor.

A sensação de agora é: Venci! Dei conta! O pior já passou! Dentro de cinco anos tive três filhos, mudei de estado, voltei pro de antes, cuidei diariamente em cada detalhe das crianças, da casa e do marido. Para cuidar de mim mesma sobrou pouca energia. Mas eu sou muito atenta aos sinais divinos para não perder nenhuma boa oportunidade ao meu redor. Cada pessoa que esteve na minha vida nesta fase me trouxe algo de bom: um papo, um presente, uma piada, um livro, um abraço, um ouvido atento e sem julgamentos, uma música, uma história, enfim, cada um trouxe um afago para minha alma carente. Assim consegui vencer os doze meses deste ano, me apoiando em cada ombro que apareceu.

Algumas amigas das mais importantes se fizeram presentes apesar da distância física. Outras se distanciaram me dando espaço pra não me sentir tão cobrada ou pressionada para lhes manterem informadas da minha vida. Acreditem: como eu não gosto de relações superficiais eu faço questão de periodicamente enviar para as pessoas mais importantes textos longos, tipo uns relatórios detalhados sobre nossa rotina em família. Para mim é divertido escrever, mas com as demandas de três crianças é difícil até poder sentar em paz na frente do computador por meia hora. Aí os dias vão passando e eu me sinto sufocada, como se eu estivesse deixando de cumprir uma tarefa importante. Sinto estranheza ao responder o básico das relações superficiais: “Tudo bem?” “Sim, tudo bem.” Existem tantas coisas intensas para responder a essa pergunta! E neste ano de 2019 a principal resposta foi: “Sim, por fora tudo segue na rotina normal. Mas por dentro…”

“Se chorei ou se sorri, o importante é que eu venci!” Cá estou, observando tudo com respeito e gratidão, respirando fundo e me preparando para a fase vindoura. Sou otimista: acredito que o ano que vem será bem mais leve, divertido e produtivo. E claro, com menos sofrência. Posso dizer que amarguei um puerpério de 5 anos, com amamentação constante. Fazem ideia do que significa isso!? Dedicação total, entrega, dor, sono, medo, enfrentamento segundo a segundo das minhas angústias e muito diálogo dentro da cabeça, por fora em silêncio. Acredito que só quem já passou é capaz de imaginar.

O primeiro passo para o próximo ano vai ser iniciar o processo de desmamar a caçula. Vou fazer de tudo para que seja tranquilo, respeitoso e com muito amor. Eu preciso que flua sem traumas para nenhum de nós. Amamentar os três por tanto tempo foi a maior prova de amor que já dei para alguém, na verdade “três alguéns”. Foi a dedicação mais duradoura e intensa da minha vida. Nem consigo mensurar ainda. Só com o passar dos anos vou conseguir analisar isso direito.

Agora quero e preciso falar sobre a cerimônia de fechamento de parto. Ainda sinto a força arrebatadora…

Eu nunca dei importância para rituais ou tradições. A maioria acho que deve fazer algum sentido para quem pratica, principalmente se for dentro de um contexto social, ou histórico, ou religioso, ou sei lá, dentro da busca ou fé de cada um. Como eu não recebi nenhuma influência religiosa dos pais e me mudei tanto de endereço que não dava tempo de me fixar em nenhuma cultura local, fiquei meio no vazio. Em geral respeito, mas pouca coisa toca meu coração.

Bem, há um ano fizemos a cerimônia de despedida da barriga e foi tão incrível, que enquanto as mulheres cantavam o nome de minha filha as contrações vinham, e em duas horas eu estava com ela nos braços, eu ainda com a barriga pintada, não deu tempo nem de tomar banho. Foi bonito, mágico, suave e ao mesmo tempo forte. Passei a respeitar e admirar o poder dos rituais.

Recentemente, depois de ter participado de rodas de conversas com mulheres, palestras e leituras, recebi a informação de que existe o ritual de fechamento de parto, que faz muito bem para a mulher. Ouvi que é tradição no México, e foi copiado e adaptado no Brasil. Fecha um ciclo e deixa caminho aberto para os próximos. Fiquei muito interessada e tive a sorte de que aqui no Capão mulheres queridas são experientes em pôr em prática a cerimônia. Aqui existe um coletivo de umas vinte doulas/parteiras que estudam sobre gestação, parto, puerpério e tudo sobre mulher, sexualidade, sagrado feminino, etc. Então numa roda de conversa foi mencionado o ritual e algumas mulheres assim como eu demonstraram interesse. Graças a Deus algumas se articularam e marcaram a data para realizar, contemplando quatro mulheres no mesmo dia. Só posso me considerar sortuda por poder receber um tratamento espiritual neste nível a um valor tão simbólico, inversamente proporcional ao poder e potência dos resultados.

Foi numa linda tarde de sol, num sítio de nome Enarmonia (da amiga Carolina Endi, a mesma que cantou “chamando Catarina” na cerimônia de bênção para o parto), que o fechamento de parto aconteceu. Meu marido estava trabalhando, portanto me aventurei em caronas para chegar ao sítio. Foi divertido e ainda cheguei com 15 minutos de antecedência. Deixei meus três filhos com Carol que é minha amiga e me ajuda em casa. (É nós! Sem ela não seria possível. A ela minha eterna gratidão por estar no lugar certo na hora certa me ajudando nos meus processos.) Deu tudo certo. Deu até tempo de tomar um banho de rio enquanto fazia minhas orações antes de começar, daqueles de lavar a alma. Fui recebida pelas meninas com muito amor e simpatia, apesar do ar solene e sério que a ocasião pedia. Foi lindo. Primeiro falei um pouco minha história com a maternidade, sobre o quanto me doei e me doí nestes cinco anos, e sobre a necessidade de virar a página. Chega de viver na sombra, preciso urgente passar para o lado da luz! Estou fazendo tudo o que tenho ao meu alcance para driblar a depressão pós parto e viver a rotina com leveza e alegria. É hora de sair do estado de zumbi sonolento, e ir brincar na natureza com meus três anjos. O pior já passou, é hora de começar a curtir e relaxar.

Depois recebi uma intensa massagem, houve defumação, música e depois o banho mais quente que tomei em minha vida, com ervas. Muito marcante! Depois deitei e tive sete pontos do meu corpo amarrados com firmeza, enquanto as mulheres rezavam e cantavam. Fiquei ali por alguns minutos, toda empacotada, suando, respirando, rezando, chorando, sorrindo, pensando, meditando, tudo ao mesmo tempo e sem mover nenhum dedo. Vi o filme da maternidade passando na minha mente, me mostrando o quanto maternar é se permitir ser transformada. Senti uma borboleta no casulo, preparando para sair bela, com grandes asas, livre para voar.

Saí plena, leve, um pouco atordoada. Era como se fosse um novo parto, mas não o parto de um filho, e sim o parto de uma nova mulher, nova “eu”. Como uma coisa tão forte não é oferecida a todas as mulheres do mundo!? Puxa, como faz sentido!

Acho importante mencionar que uma nova amiga também “recebeu” o ritual na parte da tarde. (Não vou mencionar o nome antes de receber autorização dela.) Fomos juntas, aguardamos juntas, trocamos figurinhas, contamos a história de uma para a outra, depois passamos pelo ritual e fomos embora juntas. Ela tem uma história incrível, também cheia de medos, dores, dificuldades, superações, força, anjos, muito amor e bênçãos. Estas trocas nos fortalecem, fazem a gente valorizar e respeitar as colegas e a nós próprias.

Só tenho a agradecer a Deus, ao Universo, às mulheres do Capão (em especial à Cássia Santos que a cada encontro ilumina minha alma com seu sorriso e palavras certeiras, e não por acaso dirigiu este ritual), ao Capão com toda a sua natureza pulsante, à Carol, ao meu querido esposo e aos meus filhos por todos juntos me permitirem viver esta experiência. Um privilégio receber esta cura, esta bênção e este carinho na alma.

Aos poucos vou observar os efeitos deste ritual no meu corpo, na minha mente e no meu espírito. Desejo seguir mais leve, mais alegre e mais equilibrada. Desejo de agora em diante maternar com mais amor e menos pesar, com mais sorriso e menos sono, com mais amor e menos dor, com mais presença no presente e não devaneios dos “se tivesse seguido outros caminhos?”. Depois voltarei a escrever para contar sobre estes efeitos a médio prazo.

No momento apenas estou gozando do indescritível bem estar, da sensação de paz e gratidão, além de me sentir mais alinhada/centrada. Que delícia… A quem for possível, sugiro buscar passar por esta experiência. Com certeza vale a pena.

A quem interessar, pesquisem sobre o ritual de fechamento de parto. A seguir dois links onde encontrei algumas informações que explicam de maneira clara e simples:

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...