Eu acredito que essa fase dura um ano. Tive três filhos e foram três puerpérios vividos intensamente até cada um completar um ano e começar a andar, falar e se desgrudar de mim.
Para quem quiser pesquisar o assunto, vai encontrar tanto na literatura acadêmica quanto em revistas, blogs, sites e outros veículos muitas informações sobre o tema. É praticamente inesgotável esse assunto. Mas eu, Júnia, posso pontuar alguns aspectos relevantes dessa fase desafiadora. São eles:
1- Dimensão tempo
A maneira de sentir e se relacionar com o tempo muda. Uma noite parece uma eternidade. Ao mesmo tempo que cada ano passa num piscar de olhos. Aguardar vinte minutos para um remédio fazer efeito, acompanhar o filho descobrindo as coisas ao redor, trocar olhares com ele, tomar um banho de cinco minutos, ter cinco minutos para conversar com alguém ao telefone, enfim, tudo que envolve tempo pode ser bem diferente nessa fase.
2- Dimensão espaço/escala
As paredes do nosso lar, o quintal, a nossa rua, a distância de um quarteirão... As dimensões mudam! Perto e longe se tornam relativos. Grande e pequeno também. Por exemplo, um inseto pode parecer um monstro gigante.
3- Dimensão corpo
O espaço físico do próprio corpo se torna diferente, pois ficamos por meses com um outro ser acoplado, seja ligado pelo peito ou apenas grudado durante dia e noite. Durante os primeiros anos da maternidade perdemos espaço na cama, no sofá, na casa, no carro, em tudo. As necessidades fisiológicas ficam em segundo plano, ter paz para ir ao banheiro fazer o número 2 ou tomar um banho relaxante se torna missão impossível. Foi com filho pequeno que aprendi a comer comida fria, a dormir com fome, a escovar os dentes menos vezes, a nem lembrar de pentear o cabelo...
4- Dores constantes
A dor do parto é fichinha perto das dores do puerpério, pois uma se sobrepõe à outra: o sono constante causa dor de cabeça, as madrugadas movimentadas nos faz deitar com o corpo torto, o que nos causa dores nas costas. Ficar sentado causa formigamento nas pernas. Dores dos seios por causa da amamentação é um capítulo à parte, que inclui febre, sede, dor na pegada, dor quando a criança quer mamar, dor se usar sutiã, dor se não usar sutiã. Dor pra fazer o número dois. Cólicas e dor enquanto o útero contrai, principalmente enquanto o bebê está mamando. A gente se acostuma a sentir dor o tempo todo. Misercórdia!
5- Reflexão família / colo da própria mãe
A gente começa a se perguntar:
Será que dei esse trabalho para minha mãe?
Será que ela recebeu apoio?
Será que eu era uma criança chata?
Será que eu era bonitinha assim?
Como minha mãe dava conta de seis ao mesmo tempo?
As perguntas se tornam infinitas. E a gente aprende a ter compaixão, respeito e admiração pelas nossas ancestrais.
6- Cobrança interna / Busca de perfeição / Dar o melhor
As cobranças internas são muitas. A gente se cobra, se pressiona, se propõe metas, não alcança todas, se culpa, chora e sofre. A tentativa de fazer o melhor, de dar conta, de deixar tudo confortável para quem está ao nosso redor, de servir, etc. Tudo isso leva mais à exaustão e frustração. Por mais que alguma mulher tenha uma boa rede de apoio e possa relaxar, ela sempre vai se cobrar.
7- Cobrança externa
Os palpites vêm de todos os lados, a grande maioria desnecessário. As pessoas criam expectativas e cobram, mesmo sem ter sido convidadas. Depois a gente aprende a ignorar, mas durante essa fase em que estamos mais sensíveis, tudo parece que dói mais, junto com a insegurança, o medo de não fazer as coisas certas. No início é bem difícil.
8- Medo
O medo nos acompanha desde o resultado positivo do teste de gravidez. Até as pessoas mais otimistas sentem um frio na barriga. Desde medos comuns, como de o filho cair, até medos mais complexos, tipo se ficar doente, ou se teremos condições de dar-lhe o sustento, a segurança e a presença necessária ao longo da vida. Fora o medo que vem de alguma situação imprevista, um pequeno acidente, ou uma situação de violência, ou qualquer imprevisto. Minha filha teve um sufocamento no quarto dia de vida. Fiquei com as pernas bambas por três dias. Durante meses a mantive bem pertinho do meu ouvido 24 horas por dia, onde eu acompanhava sua respiração. Foram noites e noites revezando com o marido a vigília ao sono dela. Nunca tinha sentido tanto medo. Acho que nem sabia o que era medo de verdade antes.
9- Exaustão sono
A sensação é de ser um zumbi. É como se a gente ficasse em "stand by", nem completamente desligado nem completamente ligado. É não querer sair de casa para estar próximo da cama e em qualquer tempinho/ oportunidade a gente poder deitar e tirar um cochilo. É forte, é tenso, é indescritível. *Ao final deste texto segue um outro texto falando sobre a privação de dormir que poderá explicar o que quero dizer.
10- Solidão
Agora eu entendo a frase: "Só entende quem passou por isso". Sobretudo durante as madrugadas, quando o resto do mundo silencia e você está ali, a postos, a servir seu pequeno ser. A sensação de que os volumes externos diminuíram o seu aumentou, parece que seus pensamentos dão eco. Durante o dia tem movimentação, gente pra lá e pra cá, e você meio zumbi, estando "em outra frequência".
11- Cadê eu?
É doação, é entrega, é anulação de si mesmo, de suas próprias vontades ou necessidades. Fora a invisibilidade. O centro das atenções é a criança. Ninguém se importa muito como você está realmente. Socialmente eu parecia não existir. Só depois do meu primogênito completar cinco anos e eu voltar a trabalhar que passei a ser reconhecida na comunidade como um indivíduo.
12- Necessidade de lazer e convivência
Eu sempre fui perfeccionista, e sempre gostei de só relaxar depois das missões cumpridas. Aprendi desde cedo "primeiro o lazer, depois a diversão". Durante o puerpério tudo fica meio confuso, o serviço de casa e dos cuidados com o filho é infinito. A energia é que inversamente proporcional, pois nós mães estamos sempre exaustas fazendo o melhor que dá, sendo esse melhor um "mais ou menos" aos olhos alheios. Aí vem a necessidade de socializar, de ver gente, de bater um papo despretensioso, de fazer algo por prazer, sem pressa e sem cobrança. Eu admiro muito as mães que conseguem ter vida social e se divertir. Até hoje desde que meu primeiro filho nasceu eu acho que não consegui. Estou sempre com eles comigo, estou sempre em estado de alerta, estou sempre dando prioridade para eles. Sinto tanta saudade de sair pra dançar, de pedalar, de curtir um momento com os amigos... Às vezes tenho a impressão de que a verdadeira eu morreu mesmo.
13- Hoponopono
Para treinar bem a frase "Aceita que dói menos", fico mentalizando como mantras as seguintes frases:
Eu te amo. Eu sou grato. Me perdoa. Eu sinto muito.
E mergulho no sentimento que cada frase dessa traz, entro na vibração e a direciono para quem precisa. É forte...
14- Ausência da menstruação e a sensação de estar descompassada/ desregulada
Eu já até escrevi alguns textos só sobre minha menstruação. Já passei por várias fases. Mas o fato de ter ficado praticamente cinco anos sem menstruar me fez reaprender a me relacionar com meu próprio ciclo. Senti muita falta, o fato de estar imprevisível era aflitivo. Senti mal estar, tristeza, raiva, na verdade é como se durante todo esse tempo eu estivesse de TPM, só esperando a bendita chegar pra dar aquela sensação de limpeza e alívio. Foi uma parte da experiência materna que não gostei.
Imagino que mães ao lerem meu relato se identificarão em vários pontos. Em algumas palestras / encontros de mulheres onde listei os itens acima, as mulheres ficaram impressionadas como eu consegui verbalizar o que elas sentem, mas não conseguem explicar. Eu sou profunda e gosto de descrever as coisas e sentimentos, de dialogar e de ouvir. As grávidas de primeira viagem podem ficar assustadas, mas com o passar dos meses concordam com tudo e me agradecem por eu ter alertado. Os homens e pessoas duronas acham que é exagero meu. Mas os sensíveis e experientes compreendem e respeitam. Eu ultimamente tento não julgar muito, pois cada um lida com seus sentimentos e condições de um jeito. Para mim foi assim. Se eu puder ajudar a ser mais leve para alguém ficarei feliz. Boa sorte para todos em seus processos mentais/ emocionais/ psicológicos.
*Texto anexo sobre privação de dormir, ou excesso de sono:
Seis danos que apenas uma noite mal dormida já traz ao cérebro
Dormir menos do que o necessário em uma noite afeta concentração e sistema imunológico
Escrito por Nathalie Ayres - Em 10/12/2018
Os malefícios de dormir mal são muitos. A privação de sono crônica pode aumentar os riscos de você ter uma hipertensão, AVC, diabetes, depressão ou mesmo engordar. Mas quantas horas de sono, afinal, cada pessoa precisa?
Isso, na verdade, é muito relativo: para alguns pode ser seis horas, para outros dez. "A média na população seria de sete horas e meia de sono ao dia, mas o ideal seria acordarmos com a sensação de que dormimos o suficiente, ou seja, descansados", explica a otorrinolaringologista e médica especialista em sono, Angela Beatriz Lana.
O problema é que apenas uma noite mal dormida já pode ocasionar uma série de problemas e, de acordo, com a especialista, um terço da população está dormindo 2 a 3 horas a menos do que precisa.
1 - Aumenta a chance de acidentes
Pode parecer óbvio, mas sabia que com apenas um pouco de redução do sono já aumentam os problemas com concentração? Aí seu problema no trânsito não será apenas o sono...
"Com apenas uma hora a menos de sono já é possível sentir efeitos do cansaço no dia seguinte e dificuldades de concentração: erros pequenos no trabalho, esquecimento de palavras ou tarefas, desconcentração no trânsito...", enumera a otorrinolaringologista e médica especialista em sono, Angela Beatriz Lana. Portanto, vale separar uma horinha mais para passar entre os travesseiros!
2 - Detona o sistema imunológico
O sistema de defesa do nosso corpo está intimamente ligado ao ciclo do sono e, mesmo tendo ele ruim por uma noite, já é possível sentir as consequências. "Muitos estudos têm mostrado que a privação de sono mesmo que por um dia faz nossas células de defesa (células T) e natural killers (NK) caírem", considera Angela.
As relações do sono com a imunidade ainda vão além: "alguns trabalhos mostram, por exemplo, que quem está privado de sono produz menos anticorpos ao tomar uma vacina do que quem dormiu bem", expõe o médico do sono Geraldo Lorenzi Filho, coordenador da Residência Médica em Medicina do Sono do Incor e do Laboratório do Sono do Hospital Santa Cruz.
3 - Aumenta os problemas de memória
Há algum tempo os médicos já sabem que é durante a noite que nós fixamos a memória: as lembranças do dia se fixam nesse momento. Por isso mesmo, com uma noite mal-dormida, já é possível sentir diferenças.
"A fase das ondas lentas (em que dormimos sem pensamentos) e o sono REM são fundamentais para essa assimilação, e ambas só são atingidas quando chegamos ao sono mais profundo, o que se reduz quando dormimos pouco", explica Lorenzi.
4 - Descontrola o apetite
Nosso organismo se organiza nos ciclos circadianos (palavra latina que significa "cerca de um dia"), ou seja, os hormônios são todos regulados para estarem em diferentes quantidades durante as 24 horas do dia. Se dormirmos pouco, há uma alteração nessa ordem toda, inclusive na grelina e leptina, os hormônios relacionados à saciedade.
"De acordo com pesquisas, as pessoas que dormem poucas horas de sono (menos de seis horas) têm índice de massa corporal (IMC) maior do que aqueles que dormem entre 7 a 8 horas", considera Angela Lana.
Normalmente, os efeitos maiores da obesidade são percebidos após longos períodos de dormir, mas mesmo após uma noite com menos horas de sono já é possível perceber algumas alterações no apetite, como uma maior vontade de consumir açúcar, como aponta Lorenzi.
5 - Prejudica a aparência
Alguns estudos têm mostrado que pessoas que dormem menos são consideradas menos atraentes. E a culpa não é somente das olheiras... Há também o fator hormonal.
"Pouco sono ou sono de má-qualidade esta relacionado a uma redução na produção do hormônio de crescimento GH, que é fundamental para a renovação celular, prevenindo o envelhecimento precoce da pele e o acúmulo de tecido adiposo", considera a especialista em sono Angela.
Além disso, a liberação de cortisol, devido à redução de tempo dormindo, ocasiona uma deterioração mais rápida do colágeno. Portanto, a história do sono de beleza realmente está valendo.
6 - Deixa você mais emocional
Pode parecer estranho, mas o sono ativa mais áreas emocionais no nosso cérebro.
"Uma pesquisa publicada junho de 2013 mostrou a hiperativação do sistema límbico, de áreas cerebrais relacionadas ao estresse e ansiedade em pessoas privadas de sono. Isso significa menos controle emocional quando se dorme pouco", explica Angela Lana.
Na prática, isso significa mais ataques de raiva e tristeza no dia a dia, mesmo após apenas uma noite pouco dormida. "Essa pessoa será mais instável, explodindo a qualquer momento", traduz Lorenzi.