quinta-feira, 30 de abril de 2020

2020-04 Corona Vírus Texto 4

Nos anos 2016 e 2017 eu vivi uma árdua fase de isolamento social. No início eu achei incrível, morar numa fazenda no interior de Goiás, as árvores do nosso quintal cheias de tucanos, papagaios e outras lindas aves. Eles faziam tanto barulho! Aquele céu lindo, a cada dia um pôr do sol mais bonito que o outro no cerrado. Morávamos Víni, Marcelinho com apenas um aninho e eu, depois engravidei de Hugo. Víni saía pra trabalhar e eu ficava sozinha com o pequeno durante o dia. Era incrível. Uma casa grande, toda térrea, com uma imensa varanda coberta na frente e uma ótima área de serviço atrás, com um tanque enorme, piso de cerâmica, paredinhas ao redor. Um ambiente super gostoso, com acesso ao quintal gramado, com vista para as mangueiras e outras árvores no fundo da fazenda. Eu passava muito tempo lá, cuidando da casa, da cozinha, da hortinha e do jardim dos fundos. Era onde eu tomava sol, e Marcelinho banho de mangueira e bacia.

Tínhamos uma área cercada no nosso quintal, que fazia divisa com as outras partes da fazenda onde o dono criava algumas cabeças de gado, galinhas e porcos. Nosso quarto ficava há poucos metros do curral. Até me acostumei a ouvir os mugidos das vacas a qualquer hora. Era bom… Acompanhávamos o crescimento dos animais, com frequência nascia mais um, era tão legal! (Pena que de vez em quando algum sumia… O dono abatia. Ficava um clima triste no ar...)

A casa de vizinhos mais próxima ficava a dez minutos de caminhada, atravessando o pasto. Eu gostava de passear com Marcelinho no final da tarde, bem no horário em que as vacas paridas ficavam soltas com seus filhotes no pasto que dava o acesso da casa até a estrada. Era uma aventura fazer a travessia. As vacas nos olhavam meio bravas e eu tinha que demonstrar coragem, inclusive quando eu estava com Marcelo pequeno e Hugo no barrigão. Às vezes tinha que andar com um pau na mão. Eu invadia as casas dos vizinhos com uma desculpa esfarrapada qualquer, só para Marcelinho brincar com as crianças e eu com as donas das casas. Assim iniciei algumas boas amizades e aprendi muito sobre a cultura goiana

O nosso convívio e nossa rotina em casa era uma delícia, uma paz. Mas eu sentia muita falta de ver gente, de conversar, de sair. Principalmente durante o período de maior trabalho do Víni, que saía para apagar fogo e não tinha hora de voltar. Eu olhava aquele céu cinza, amargava o calor e sentia aquela agonia misturada com medo, ao mesmo tempo em que tinha que proteger meus filhos. O isolamento social me doía na alma. Eu emendei um puerpério no outro, então os pensamentos ficavam ecoando na minha cabeça, eu pirava no convívio comigo mesma, sentia uma aflição inexplicável. Era muito contraditório valorizar e amar toda a parte boa, a nossa privacidade, o silêncio, a casa sempre limpa e arrumada, todo aquele aconchego e ninguém pra dividir, o que era a parte ruim. Preparava comida lindamente, punha a mesa com toda a pompa e circunstância, espalhava essências bem cheirosas na casa, ouvia música de qualidade, só entre nós. Aquilo me dava nos nervos! Como era possível ter tanta riqueza e não ter com quem compartilhar!?

Foi um período em que me senti invisível, sem importância para ninguém além do meu marido e filhos. Ainda mais que durante todo o primeiro ano não tínhamos internet em casa, e o celular funcionava mais ou menos. Eu vivi dois anos de quarentena e nem sabia que isso tinha nome. Por isso essa quarentena agora é fichinha, estou passando por ela super de boa. Já sofri tudo o que tinha pra sofrer naquela época.

Depois da temporada no interior de Goiás, passei mais dois anos de isolamento mediano no Capão, principalmente durante o ano passado, que foi primeiro ano de vida da caçula Catarina, onde amarguei o último puerpério e vivi sim, muito isolada. Mas não era isolamento geográfico, era mental e individual. As paredes da casa me sufocavam. Até as montanhas ao redor me causavam desespero. Tinha vez que eu ficava uma semana sem pôr os pés no quintal, dava um “trem” na minha cabeça, não sei explicar, eu estava mergulhada naquele universo das minhas crias, não queria me misturar ao mundo lá fora, sujar os pés, pisar na lama ou poeira, não queria expôr os meninos a nenhum risco. Era mais confortável ter acesso aos recursos do lar do que ir pra rua e precisar das coisas e não ter. Então ficava lá “doidona fritando” sozinha, mais uma vez invisível. Se não fosse as consultas regulares com a psicóloga do posto de saúde eu teria pirado literalmente.

Graças a Deus passou. Assim que a pequena completou um ano eu comecei a trabalhar no cartório da vila, a dois quilômetros de casa. Até a caminhada para o chegar no trabalho me faz bem, além dos encontros casuais com as pessoas, um papinho rápido e despretensioso que melhora o humor no dia. Agora estou no céu: vejo gente, sou vista, converso, e participo de momentos importantes nas vidas das pessoas da comunidade. Agora pertenço!

Sou sociável, gosto de gente, de ajudar, de ouvir, de ser ouvida, de ver as coisas fluindo, de enfrentar os desafios e ir superando cada um. Estou numa fase boa. Sem falar no quanto estou curtindo estar trabalhando fora enquanto o marido fica de dono de casa.

A quarentena está sendo um paraíso para mim. Estou colocando em dia o serviço interno do cartório, sem as interrupções do atendimento externo. Estou trabalhando no ambiente limpo e silencioso. Uma delícia. Tudo a seu tempo.

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...