terça-feira, 10 de setembro de 2019

2019-09 Mais amor e menos julgamento

Uma amiga me disse ontem: "Aguente e siga em frente, afinal, você escolheu o que está vivendo." Entendi o ponto de vista dela. Mas ela não sabe a história. Sabe apenas a vida que eu tinha antes e a vida que tenho agora. Superficialmente. Não sabe dos desafios, dos esforços, das dores, dos sentimentos, dos processos, dos medos, da solidão e falta de controle.

Não é simples. Interessante como as pessoas são capazes de julgar cheios de suas verdades e visões de mundo próprias. Empatia zero.

Eu não escolhi racionalmente ser mãe, nem de um, nem de dois, menos ainda de três. Eu estava fazendo amor com meu esposo acreditando que meu corpo não estava funcionando normal. Na primeira vez engravidei depois de ter passado um tempo tomando anticoncepcional, estava me organizando para escolher um novo método contraceptivo, já que pílula me fazia mal. Eu estava morando junto de Víni há apenas um mês. Aquele clima de romance, o "enfim sós" e o auge dos 31 anos, bombando de saúde, tudo favoreceu para uma gravidez. Ainda confusa com os processos de decisão, de mudança de vida, não dei atenção suficiente para evitar a gravidez. Mas também acredito muito na espiritualidade. Eu pedi a Deus um sinal se era pra eu casar mesmo com Víni ou seguir mais ou menos no caminho dos estudos que já estava em Minas. O sinal veio positivo. Mais claro impossível. É claro que no auge da paixão que estávamos vivendo desejamos ter um filho e formar uma família. O desejo foi jogado para o Universo. Haviam outras coisas importantes envolvidas… Era a hora. A gente pensa ter controle sobre o corpo e a vida, mas não tem.

Quando meu primeiro filho tinha um ano menstruei pela primeira vez desde a concepção. Coloquei o DIU. Usei por seis meses. Detestei. Incomodava. Sentia mais TPM, mais cólica, mais fluxo, mais tudo. Péssimo. Não aguentei e tirei. Depois fui passar uns meses longe do marido para estudar, quando nos encontrávamos usávamos camisinha.

Na segunda gravidez eu tinha acabado de chegar depois de três meses fora. Cheguei em casa menstruada. 14 dias depois, meu primeiro período fértil. Matando a saudade, namorando com gosto e felicidade, pimba! Tudo bem. Não pirei muito. Um segundo filho, ok, irmãozinho para Marcelo, a aceitação foi tranquila. Gravidez tranquila, parto tranquilo. Puerpério mais difícil com dois pra cuidar. Detalhe: nós morávamos numa fazenda no interior de Goiás, isolados. O marido saía para trabalhar apagando fogo de uma área de proteção natural, sem data e hora para voltar. Eu ficava sozinha com os dois filhos, naquele calor aterrorizante, olhando aquele céu apocalíptico que dava medo até em ateu, respirando o ar seco e cheio de fumaça, poeira de filme de caubói, com redemoinho desenfreado no pasto seco. Para completar era temporada de escorpiões. Fui picada dormindo com os meninos. Encontramos seis dentro de dois meses. Eu tinha pesadelos horríveis, vivia paranóica com medo que picassem os meninos. Enfim, um puerpério nada tranquilo.

Para melhorar nossa vida voltamos para nossa casa no Capão. A mudança foi extremamente cansativa. Arrumei as coisas e deixei num canto da casa. Viajamos os quatro no nosso carro. Mil quilômetros até BH, onde fomos passar o último natal com o meu sogro. Logo partimos para nossa casa no Capão. Mais mil quilômetros. Gente, é cansativo demais viajar isso tudo com duas crianças pequenas! Chegamos em casa, ufa! Graças a Deus. Nos instalamos. No dia não tinha água nem energia. Tomamos banho na casa da vizinha. Aos poucos organizamos a casa. No terceiro dia Víni me deixou sozinha e foi em Goiás buscar a mudança. Mais mil quilômetros pra ir e mil pra voltar, desta vez sozinho, dirigindo. Imaginem a exaustão. Alguns dias depois chegou o caminhão com as coisas. Nós exaustos com tanta coisa pra arrumar, com os dois meninos e suas demandas. Eu pirada. Dor no corpo. Irritada. Não era só cansaço. Não sabia, mas era TPM. Menstruei pela primeira vez desde a segunda concepção. Com o passar dos dias fui arrumando as coisas e devagar fomos entrando na rotina, felizes na nossa velha morada. Clima bom, casinha arrumada, meninos à vontade… Menstruei a segunda vez, ok. Algumas semanas depois, naquele romance, pensei que estava de TPM, com os sintomas característicos. Tive uma ovulação tardia. Meu corpo voltando ao normal, eu tentando reconhecer. Fui ao posto de saúde procurar atendimento para escolher um comprimido. Tarde demais. A sonhada menina nas outras vezes estava a caminho. Desesperei. Sabia das infinitas demandas que me aguardavam.

Fiz acompanhamento psicológico durante toda a gravidez para aceitar. Foi difícil. Eu que sempre julguei as mães "escadinha"... Trabalhei muito o emocional para encarar. A gravidez em si foi tranquila. O parto maravilhoso. Mas tivemos que construir um quarto a mais na casa, o que sugou tempo, energia e dinheiro no final da gestação. Logo depois veio o puerpério…

Detalhe: o segundo filho, então com um ano e meio, estava quase desmamando e desfraldando, quando a caçula nasceu, regrediu. Voltou a mamar no meu peito com tudo. No início ótimo, aliviou pra mim. Mas eram muitas demandas. Dar conta dos três, amamentando dois em livre demanda foi exaustivo física e psicologicamente. A privação do sono noturno, a impossibilidade de repor durante o dia, pois raramente os três dormiam ao mesmo tempo. Eu virei um zumbi. Fora as cobranças internas (mil!), as externas. Pessoas próximas sem empatia lembrando toda hora que a culpa era minha por ter descuidado no sexo e engravidado em intervalos tão curtos de tempo. Morei na lata de lixo emocional, de onde acho que nem consegui sair ainda.

Com seis meses dei a louca. Saí por uma semana com a bebê e deixei os dois meninos com o pai. Fui ver a minha família e amigos, eu precisava receber doses cavalares de amor. A meta número um era desmamar o do meio. O peito levou uns dias para regular a nova demanda. Um peito ficou do tamanho de uma bola de futebol. O outro minúsculo. Dor, lágrimas, febre, ordenha... Dei leite pro gato da amiga anfitriã. Doei leite pro banco da maternidade. Dei leite até para morador de rua (que tomou de golada, deu até gosto de ver! Rsrs). Eu estava desesperada. Comprei remédio para parar de produzir leite. Mas não tive coragem de desmamar a pequena com apenas seis meses. Deixei para ver como seria o reencontro com Hugo.

A missão desmame foi cumprida com sucesso. Nos primeiros dias ele pediu e chorou. (Eu cheguei de viagem e tive uma virose, fiquei de cama por três dias. Na verdade acho que era o corpo regulando após o enorme desgaste físico e emocional.) Eu disse ao Hugo que a mamãe estava dodói, que ele já estava completando dois anos e não precisava mamar mais. Foi um processo. Mas funcionou. Fiquei bem mais aliviada com a demanda menor. Graças a Deus. Assim vai dar pra levar até Catarina completar um ano. Eu completarei 5 anos de amamentação ininterrupta e em livre demanda. Será o fim de uma jornada intensa de entrega, de não domínio do meu corpo, meu tempo e meu espaço. O maior desafio que enfrentei na vida. Maior doação e maior amor. Acho que nem vou saber lidar quando estiver livre. Mas serão cenas dos próximos capítulos, como sabiamente disse o mestre: "Deixe que o amanhã traga suas próprias fudeções!".

O inverno foi puxado, com depressão, desmame, cabeça quente pelo orçamento apertado, três crianças cada uma com os desafios da sua fase (mais o fator frio e chuva, ou seja, todos dentro de casa, saindo pouco), o marido solicitando o retorno da "vida a dois", e eu em meio ao turbilhão tentando dar conta de tudo. Resultado: estafa.

O segundo semestre começou e graças a Deus o sol está voltando. Começamos a sair mais de casa. Eu determinei metas para sair da depressão. Comecei a sair mais, a ir no posto de saúde uma vez por semana para fazer acompanhamento psicológico, em breve vou começar outras terapias complementares. Tenho visitado amigas e recebido visitas.

Aos olhos de quem é de fora parece simples o deslocamento. Para mim é bastante complexo e desgastante. Não é fácil sair de casa com três crianças. Ainda não aprendi a dirigir. Da nossa casa até a Vila são dois quilômetros em estrada de terra, ou seja, lama ou poeira e muitos desníveis e buracos. Grande movimento de motos e médio de carros. Vou empurrando o carrinho com Catarina (8m), Hugo (2) e Marcelo (4) andando. O primogênito anda bem, mas Hugo cai algumas vezes, se distrai fácil, não sabe ainda se posicionar para se proteger dos veículos e sente sono e cansaço. Muitas vezes na volta coloco os dois menores no carrinho, que fica pesado e difícil de manobrar. Sair de casa é uma saga.

Não estou reclamando. São apenas fatos. Lido com eles e com meu racional que me joga na cara o tempo todo que eu poderia ter escolhido outro caminho. Eu queria ter opção de voltar atrás, de fazer diferente. Mas não tenho. Preciso encarar a realidade presente, honrar com os compromissos, dando o meu melhor e permanecendo sã e inteira. A boa notícia é que passa. Os meninos crescem e tudo só tende a melhorar. Acredito que em alguns poucos anos vou poder voltar a estudar, trabalhar e ter uma vida com as dinâmicas que gosto.

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...