terça-feira, 10 de setembro de 2019

2017-07 Parto de Hugo

Vamos começar do início...

Minha história com Víni começou em março de 2013 quando eu estava de passagem pela Chapada. Nos conhecemos no Vale do Pati. Eu como turista num grupo e ele como guia em outro. No café da manhã eu disse que queria conhecer o Vale do Capão e ele disse que morava lá. Poucos dias depois eu fui pro Capão, quando começou nossa amizade e fizemos umas trilhas nos mais ou menos 20 dias que passei lá. Mas tive que ir pra Paraíba, onde passei um ano estudando. Neste um ano a amizade esquentou... Ele foi me ver dez vezes! Na última foi pra me buscar pra morar com ele, exatamente um ano depois de nos conhecermos. Não aguentávamos mais ficar longe.

Com um mês de lua de mel, entre xamegos em casa e passeios românticos, pimba! Eis que engravidei. Na época eu tinha medo de tudo, a maternidade era um novo mundo, me senti mais segura ao ir para BH passar a gestação e o parto próximo à minha família e amigos, fazendo pré natal no SUS e parindo num hospital referência em parto humanizado. Em janeiro de 2015 Marcelinho nasceu.

No geral deu tudo certo e voltamos pra casa no Capão. Os seis primeiros meses foram bem difíceis com amamentação e questões emocionais. Puerpério do cão! Depois foi melhorando. Mas logo veio o segundo segundo semestre de 2015, quando aconteceram incêndios terríveis na região. Víni saía pra apagar fogo sem previsão de volta. Eu sofria horrores... Queria mudar de cidade. Víni foi convidado a trabalhar num projeto do Ibama numa cidadezinha do interior de Goiás que iria durar 2016 e 2017. Adivinhe para qual função? Ser chefe de brigada numa área de preservação no cerrado! Lá fomos nós... De certa forma foram dois anos tranquilos. Morávamos numa fazenda, vivíamos rodeados de araras e tucanos, próximo a lindas veredas e grandiosas paisagens do cerrado. Fora os frutos do cerrado que nos esbaldávamos! Fizemos amigos, Marcelinho cresceu, frequentou escolinha, Víni cumpriu com excelência o trabalho, eu vivi meus processos mentais e tudo fluiu bem.

Mas cismei de voltar pra BH pra terminar a graduação na UFMG. Fui com Marcelinho pra passar o segundo semestre de 2016. Foi um período difícil, caos e confusões na cidade, “guerras” entre policiais e estudantes, greve, altos custos, calor e dificuldades no convívio com a família. No terceiro mês pirei e larguei o curso. Peguei meu menino e voltei correndo pro nosso sossego na roça.

Ao retornar e matar as saudades... Pimba! Na segunda semana... Engravidei! Tudo bem. No início um susto, mas ter dois filhos seria bom pra todos nós. Comecei o pré natal no posto de saúde da cidade. Péssimo. Nunca nos adaptamos com a cultura goiana. Era tudo complicado. Decidimos não parir lá. Eu não queria acabar numa cesariana num hospital tenebroso qualquer. Resolvemos que o melhor seria parir em casa, no Capão, sob assistência do grupo Parir. Já conhecíamos a enfermeira obstetra Natália e algumas doulas do grupo. Já sabíamos que eram profissionais e “humanas”, amáveis e respeitosas com todos da família durante os processos do parto (antes, durante e depois). A data prevista para o parto era 17/07/2017.

No início do mês de julho viajamos mil km, com barrigão enorme e medo de parir no meio do caminho. Mas a viagem foi tranquila e ele nasceu só no dia 18/07. Fomos muito bem assistidos pelas meninas do Parir. Deu tempo de preparar a casa e tudo mais. Era inverno. Numa semana de dias frios e chuvosos eis que amanheceu um lindo dia de sol. Todo mundo feliz indo esquentar no quintal...

Às 8h do dia 18/07/2017 comecei a sentir as primeiras contrações. Tudo fluiu bem. As meninas chegaram, fizeram fogueira no quintal pra aquecer a água da banheira. Eu fiquei só no quarto, revezando entre caminhar, rebolar, deitar, sentar na bola de pilates, respirar fundo, receber o carinho do marido e do Marcelinho, etc... Por volta das 14h fui pra banheira, onde mergulhei na “partolândia”. Entrei no meu transe. Tinha pouco movimento próximo a mim. Era mais Natália e Víni.

Só depois fiquei sabendo da movimentação das meninas lá fora, que até almoçaram em clima descontraído em volta da fogueira. Volta e meia Marcelinho se aproximava, me apoiava com o olhar doce e as mãozinhas, respirando junto comigo. Às vezes eu ouvia a voz dele brincando no quintal. Era uma paz... Indescritível! Víni também me rodeando, me acariciando, me dando água e traduzindo meu olhar para a Natália. Ela manteve a água na temperatura perfeita. Me apoiava sem ser invasiva. Quando eu não dava mais conta de rebolar ela rebolava pra eu ver e relaxar, girava lentamente com sua saia leve e colorida. Também repetia meu mantra: “Deus é Bom.” Esse mantra me veio lá na hora, era a maneira mais simples de dizer o quanto eu estava grata por tudo estar perfeito para receber meu filho neste mundo.

A cada contração eu imaginava uma bola grande e violeta atravessando meu corpo da cabeça aos pés. Entre uma e outra eu descansava. Até que às 15h Hugo saiu de mim e ficou submerso na água. Foi lindo, calmo e alegre. Doeu um pouco. Mas as coisas boas eram muito maiores... Víni junto comigo na banheira, uns dez minutos ali assim no nosso primeiro encontro... Uma espiadela de Marcelo e depois os sorrisos e olhos brilhantes das meninas.

Depois fui pra cama, todo mundo de cara como tudo fluiu bem, em silêncio e paz. Logo teve a parte mais chata e incômoda: aguardar a placenta sair, lavar e dar uns pontinhos. A placenta foi congelada (no tempo certo depois foi cuidada e guardada num vidro como medicina).

Enquanto Natália cuidava dessa parte, Marcelo veio e dormiu colado em mim e no nenêm. Não teve preço a participação dele. Pra mim tudo valeu por essa tranquilidade e naturalidade entre todos da família. Aqueles olhares e sorrisos de todos os presentes só confirmavam “o sucesso da operação”.

Nunca vou me esquecer daquele cheiro bom no ar, daquele sol de final de tarde e de todo o clima alegre no nosso lar. Não posso deixar de mencionar a participação de uma grande amiga da Paraíba que passava uns dias conosco, que ficou “na equipe de apoio”, assim como duas vizinhas muito queridas. As três ajudaram em tudo, me deram sopa, cuidaram de Marcelo, etc... Às 18h tudo estava limpo e organizado. Repousamos em paz no nosso lar. Foi mágico.

2019-05 Depressão

(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...