Os meninos estão lindos. Quando eu digo lindos, não me refiro à aparência física. Quero dizer que estão com saúde, bem dispostos, sorridentes e sapecas. É uma beleza do conjunto completo, deles interagindo com a gente, entre eles, com os amiguinhos, com a casa, com quintal, com a vizinhança e com o mundo.
Hugo engatinhando pra todo lado, curioso, desbravador, destemido e atento a qualquer barulho e qualquer coisa minúscula no chão, como fios de cabelo, formigas, etc... Hugo come de tudo, quer experimentar tudo, quer participar do preparo da comida, quer ficar em cima da pia enquanto lavo a louça, e claro que enfia a mão embaixo da torneira... Hugo é risonho ao cubo! Até dormindo ele sorri ao ouvir a voz de Marcelo! É mimoso, quando vê alguém que ele gosta encosta a cabeça no peito de quem está segurando-o e lança aquele olhar terno e uma piscada longa. Ele AMA entrar no banheiro e ficar lá brincando. É uma luta tirá-lo de lá toda hora (Marcelo vive deixando a porta aberta). Sabe porque ele ama o nosso banheiro? Porque foi lá que ele nasceu! Eu deixo o banheiro extremamente limpo e seco e acabo deixando ele brincar um pouquinho com os brinquedos de banho.
Marcelo está enorme! Parece que tem 6 anos! Nem cabe no meu colo, ficam as pernas longas pra fora! O corpo todo sarado, peludo e moreno. Cada detalhe é lindo: pele, mãos, pés, cabelo de cachinho, olhar profundo e risadinha sacana. Ele tem personalidade forte, é muito reservado, odeia aglomerações: não vai em festas de aniversário e nem no seu próprio deixou a gente cantar parabéns! Ele é tímido, não gosta de ser o centro das atenções, não gosta que falemos dele a outras pessoas e não gosta de muvuca em geral. Também não gosta de lugar barulhento, nem criança chorona. Marcelo gosta de ter o espaço dele, físico e psicológico. Gosta de tudo organizado e limpo. Ai de quem suja ou bagunça as coisas dele! Hugo sempre faz isso e ele pira. Marcelo gosta de rotina. Gosta de entender o mundo e de explicar o funcionamento das coisas para os coleguinhas. Por exemplo, se está na casa de um menino e começa a anoitecer, ele diz: "O sol foi embora. Está ficando escuro. Está na hora de ir pra casa tomar banho e lanchar." E exige que todos sigam à regra. Aliás, adora impor suas regras e tem dificuldade de aceitar regras alheias. É necessário argumentar e provar pra ele que é o melhor jeito, assim ele vai cedendo aos poucos até assumir a regra internamente. Marcelo gosta muito de assistir TV, ou vídeos no tablet e no celular. E fica arretado quando a energia acaba ou falta internet. Mas controlo o uso, vou controlando entre horários. Tem hora de brincar no quintal, hora de receber os amigos, hora de jogar bola e correr no campinho (ou na pracinha), hora hora de ir pra casa dos amigos, hora do banho (lúdico, com bacia e brinquedos), hora de ficar nos aparelhos tecnológicos e a hora sagrada de dormir. Ao longo do dia as atividades vão mudando. Ele agora está numa creche Waldorf, de segunda a sexta, pela manhã. Apesar da enrolação pra acordar, trocar de roupa, escovar os dentes, tomar café e sair, ele gosta de ir. Sempre chega contando os ocorridos. Bom que tenho as manhãs livres pra ouvir as notícias e músicas no rádio enquanto cuido da casa, de Hugo e preparo o almoço. Também é bom porque ele chega, vai direto pro banho, almoça e depois tira uma soneca. A escolinha é Waldorf, né? Isso significa que lá ele sobe em árvore, brinca na areia, tem total contato com a natureza, socializa com os dez coleguinhas, se alimenta bem e gasta muita energia. Além de ouvir histórias e fazer atividades orientadas pelas "tias" muito bem treinadas pela pedagogia Waldorf (quem conhece tem noção do que estou falando). Tudo funcionando bem, graças a Deus.
Em casa na parte da manhã eu conto com a ajuda de uma moça. Nos revezamos entre Hugo, casa e cozinha. Sempre dá certo. Pra mim é uma benção. Pelo menos enquanto Hugo é pequeno, essa ajuda é fundamental pra mim. Bom que também tenho alguém pra conversar assuntos diferentes. Isso me faz muito bem. Com ela troco muita energia, dôo e recebo. Dou conselhos, conto minhas histórias de vida, de viagem, da história de amor mais bonita que conheço e que está completando 5 anos... Falar me deixa muito leve e feliz. Ouvir me faz rir, me faz pensar, me conecta ao mundo.
À tarde às vezes rola o milagre do sono sincronizado, do qual também desfruto. Se o sono não é sincronizado, brinco com um enquanto o outro dorme. Mais no final da tarde caminhamos. Geralmente até o mercado. Às vezes até a casa de alguma amiga, ou mesmo até a vila, onde tomamos sorvete, ou açaí ou lanche. Essa caminhada é super importante pra mim, pra eu tomar sol, movimentar o corpo, ver gente diferente e sair de casa. Meu plano é encontrar alguma atividade em grupo pra eu fazer, algo como dança, ou yoga, ou capoeira, etc...
No final da tarde/início da noite tem a saga do banho, os quatro juntos. Com muita alegria, bagunça, às vezes briga, às vezes choro (tem dia que Marcelo já está muito sonolento ou com fome), enfim, no meio do caos terminamos o banho, nos vestimos, ponho as roupas sujas no lugar, estendo as toalhas, organizo o banheiro... Lembrando que o banho acontece num banheiro (suíte) em cima da casa, passando por fora. Ou seja, subo e desço escada no meio do auê com menino no colo... Nem é cansativo, imagina... kkkkk Depois vem a saga do lanche. Mas é mais tranquila.
À noite é quando nem Víni nem eu estamos trabalhando. Ficamos os quatro na sala. Assistimos tv (desenho/jornal/novela), brincamos no tapete, rolamos no chão e tudo o que for possível neste espaço/tempo sagrado. Por volta das 22h vamos todos pra cama. Víni e Marcelo dormem na cama de casal e eu na de solteiro com Hugo. Por enquanto assim é melhor porque eles são todos grandes e se mexem muito na cama. Um mexe e joga as pernas em cima do outro, e assim acordam.
Hugo e Marcelo se dão bem o tempo quase todo. Vivem se abraçando e se beijando, um fazendo o outro sorrir. Mas às vezes rolam uns "fights"! Disputa por brinquedo, ou celular, ou um quer dormir e o outro vem pentelhar... Eu tenho que ficar muito atenta para Marcelo não machucar Hugo.
Tem outros detalhes que fazem parte da rotina:
*coloco fraldas de pano em Hugo, o que significa ir pro tanque pelo menos 4 vezes por dia para lavá-las.
*os dentinhos de Hugo estão nascendo, o que significa muito mais demanda para mim.
*Víni às vezes vai para a trilha e fica dias fora, o que exige de mim muito mais demanda e insegurança emocional.
Estou sempre cansada, mas sempre feliz. Tirando na TPM que me deixa mal humorada, impaciente e rabugenta por uns 4 dias. (Editado: Mal sabia eu que foram apenas 2 TPM's até engravidar de Catarina e então levar mais quase 2 anos para menstruar de novo!)
Nossa rotina é intensa. Nunca tenho tempo pra outras coisas. Sinto muita falta de usar o computador. Pego no celular muito pouco. Levei 3 dias para escrever esta mensagem! Rsrsrsrs
O ritmo do dia é fortemente influenciado pela noite anterior. Se a noite foi tranquila, se todos dormimos direto, se dormimos as horas suficientes, o dia transcorre de boa. Mas se um de nós dormiu mal, principalmente se foi um dos meninos, os outros quase não dormiram também. Se for resfriado, fica difícil porque preciso passar a noite sentada ou em pé para que o menino respire melhor. Se for dor de barriga, aumenta a demanda com as idas ao banheiro. E como o quarto e o banheiro fica em andares diferentes, fica super cansativo subir e descer escadas com criança toda hora. Se um chora, o barulho acorda todos da casa. Se chove forte, com muitos ventos, raios e trovões, a gente fica em estado de alerta e não descansa bem. Isso acontece com uma certa frequência. Quem tem filho sabe sobre essas variáveis que comprometem o bom funcionamento dos nossos corpos durante o dia. Inclusive se não dormimos bem por algumas noites seguidas, ficamos com dor de cabeça, mal humor e lentidão. Por isso, as noites de sono são sagradas e fazemos de tudo para que sejam tranquilas e reparadoras.
Outra coisa importante é nossa interação com a natureza aqui no Capão. O clima é quem dita o estilo do dia. Se amanhece chuvoso e frio, as atividades são mais dentro de casa, é um tipo de alimentação e não tem como fugir dos eletrônicos. Se amanhece de sol, já despacho as crianças pro quintal, Marcelo vai brincar com os vizinhos, eu tento tomar um pouco de sol, ouço rádio e músicas. Esse detalhe faz toda a diferença no meu bom humor. Ainda mais agora que Marcelo passa as manhãs na escola, estou me esbaldando com rádio (rádios de BH) e músicas. Canto, danço enquanto faço as coisas da casa e relaxo. Além do clima, tem as plantas em geral, com quem temos uma relação muito próxima. Por exemplo agora é época das quaresmeiras que ficam muito roxas enfeitando a paisagem. Tem também as árvores frutíferas que bombam no Vale nos dando frutos, sombra e felicidade. Ah, o céu do Capão é um trem de doido! De dia ou de noite, com lua ou com estrelas, com chuva ou sol... Mas lua cheia e pôr do sol até as crianças ficam eufóricas. É lindo demais! Às vezes rola até fogueira para apreciação.
Um capítulo à parte é a alimentação saudável à qual temos acesso fácil aqui, a um preço barato comparado a muitas outras cidades. Muitos orgânicos são vendidos na feira, nas quitandas, mercados e de porta em porta. Tem até um rapaz que entrega leite de vaca não industrializado em casa (R$3,50 o litro!). Várias opções de alimentos vegetarianos, como pães, tortas, pizzas, sanduíches, salgados, PF's, doces, etc... Tem gente que vende até peixe fresco na porta da gente! A feira além de oferecer diversos produtos bons e baratos, ainda é um ponto de encontro das pessoas. Na feira tem até japonês de verdade vendendo comida japonesa! Tem capoeira, meditação, a criançada brincando livre, malucada fazendo malabares, outros tocando música... Tudo ao mesmo tempo!
A interação social no Capão é um espetáculo à parte. Uma simples ida ao mercado pode ser repleta de abraços, sorrisos, ajudas (eu que o diga carregando crianças e sacolas morro acima) e surpresas (como encontrar velhos amigos e conterrâneos, ou animais livres encantando o dia). Sem falar na quantidade e variedade de eventos culturais como circo, música, dança, medicinas/encontros de terapias de cura, palestras, mutirões ou mesmo uma pelada no campinho... E os noturnos que nem sei...
A cooperação vicinal também me deixa impressionada! Desde situações especiais como um parto em casa até situações simples do cotidiano lá estão os vizinhos participando e dividindo as alegrias e tristezas. E todo mundo ajuda a criar a meninada. É um cuidado mútuo que eu não vejo nas cidades grandes. Diariamente vem pessoas na minha casa trazer algo gostoso, ou brincar com meus meninos, ou contar uma novidade, ou chorarmos juntos um luto... Mesmo sem sair de casa eu interajo e me conecto com o mundo (experimentei viver isolada em Goiás e não gostei.).
Texto ainda em construção. Nem comecei a falar sobre meus sentimentos, sobre planos, sobre visão ideológica e política... Sobre desafios diários. Sobre a vida a dois, as alegrias e dificuldades...
Escrever é minha forma de expressão. E minha melhor forma de comunicação. Apesar de estar fora de moda. "Ninguém" quer mais ler mais de três linhas. Preferem "ler as figuras".
Eu também aprecio uma boa conversa, mesmo que seja por telefone. Mas quem tem paciência e ambiente silencioso pra conversar por meia hora com um amigo? Quem quer se desconectar das outras coisas e conectar só no interlocutor?
Nós (você e eu), os amigos à moda antiga somos assim. Mas difícil estar num ambiente favorável, com os recursos necessários, com disposição física e mental, e as duas pessoas disponíveis ao mesmo tempo, né? (As duas pessoas dispostas a priorizar um diálogo ao mesmo tempo é raridade.)
E sem criança pentelhando, né!? Kkkk
Um cantinho virtual onde posso registrar e compartilhar minhas memórias, crônicas, declarações de amor e o que mais o coração pedir. Meu compromisso é apenas com meus sentimentos, não com leitores, com instituições, cronologia, nada. Escrever é a minha forma de me expressar e organizar as ideias. Como tenho três filhos pequenos falta tempo e silêncio para escrever. Logo, todos os textos estão em fase de edição constante.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
2019-05 Depressão
(Atenção para a data em que foi escrito este texto: Maio de 2019.) Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de ...
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Olá, amigas queridas. Mais ou menos de 3 em 3 meses gosto de enviar um "relatório" com notícias minhas e de minha família. É muito...
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Nos anos 2016 e 2017 eu vivi uma árdua fase de isolamento social. No início eu achei incrível, morar numa fazenda no interior de Goiás, as á...